Cristiano Mariotti

Não ao acaso: sim, ao trabalho!

Existem algumas frases que “pensadores” há muito tempo lançaram no esporte e, especialmente, no futebol, sendo que se propagaram por décadas e ainda hão de perpetuar por muito mais tempo no sentido de trazer algum conforto na hora da derrota e, até mesmo, um incentivo para o porvir próximo. 

Já ouvi muitas desde minha época de infância, no qual comecei de verdade a acompanhar o futebol. Contudo, a que mais me chama atenção é quando alguém (seja o Presidente, o técnico, o jogador ou até mesmo nós torcedores) diz que “perdemos na hora certa”. Confesso-lhes que debruço-me sempre que alguém assim me fala e meu questionamento para a mesma pessoa é sempre o mesmo: o que se considera como a “hora certa” para perder? Sério que existe isso?  

Um dia em que disputamos a liderança (ainda que estejamos no começo do campeonato) com o estádio cheio depois de milhões de apelos que fizemos (eu, modéstia a parte, fiz MUITO isso boca-a-boca e pelas redes sociais) e frente a um adversário no qual há muito tempo sabemos de nossas dificuldades em derrotá-los dentro de nossa própria casa, então, é a hora certa para perder? 

E ainda sabendo de o quanto que o vascaíno é um torcedor muito exigente, que num dia idolatra seu time e no outro, após uma derrota, volta tudo a estaca zero e milhões de vozes se levantam a dizer que fora uma ilusão aquela sequência de quatro vitórias seguidas. Como se a “carruagem tivesse virado abóbora” em pouco mais de noventa minutos e que, dali pra frente, a desconfiança volta e sobre ela nos agarramos com argumentos de que tem que mudar tudo senão não vamos conseguir chegar aos nossos objetivos.


Puro acaso?!

Nesse momento nós, torcedores, nos sentimos como se estivéssemos caminhado ao meio de um deserto. E que nesse deserto, vemos um time de futebol profissional vencendo seguidamente (mesmo que algumas vitórias tenham sido pouco convincentes), confirmando de fato que o grupo é capaz e que se chegamos a repetidas finais seguidas desde ano passado não foi por pura obra do acaso...

Como também não foi por acaso que vencemos a Copa do Brasil... 

Como também, não foi por acaso que nosso técnico teve um gravíssimo problema de saúde que quase lhe tirou a vida e que por ele os jogadores recuperaram seu “gás” para disputarem ponto a ponto aquele campeonato até o fim, e que só foi disputado ponto a ponto por conta que questões extracampo que já cansei de lhes repetir aqui nesse “superespaço” cedido por confiança a mim...

Como também não tem sido por acaso que, nesse ano, perdemos em ocasiões cruciais de uma competição... Fato!

No último sábado, inclusive. Muitos irão dizer que o time fracassa em jogos com caráter mais decisivo, muito embora considere que TODOS os jogos são decisivos. Então, a conta que nós fizemos computando os três pontos do último sábado deverão ser refeitas contando com uma vitória fora de casa em substituição.

E que fique mais uma vez o aviso: NADA é considerado como “favas contadas” em um campeonato como esses! Portanto, não existe essa de “obra do acaso”. Perdemos porque mais uma vez não jogamos bem e cuja minha visão descreverei mais adiante. 

E que se voltar a repetir os mesmos erros contra uma das primeiras colocadas do Campeonato Paulista - a  Ponte Preta - no próximo sábado, o resultado poderá ser o mesmo. Simples assim!


Vasco da Gama 1 vs 3 Cruzeiro

Jogávamos contra o, então, vice-líder, que possui um time limitadíssimo, mas que é muito bem comandado por um técnico trabalhador, que arranca de seus limitados times tudo que pode nos inícios de campeonato, pois sabe que vai perder essa mesma “gordura” no final quando todos estiverem, de fato, conscientizados finalmente que o campeonato começara faz tempo. Esse mesmo time possui um grande jogador (único) que resolveu jogar muito em uma tarde-noite inspirada. Um camisa dez chamado Montillo que, além de tudo, gosta de jogar bem justamente contra cariocas – nós, inclusive!

Junte-se a esse fato o de nós termos entrado em campo com três cabeças de área escalados contra um time que, visivelmente, iria jogar retrancado, sendo que nosso único homem de criação (Felipe) estava atuando como pseudolateral-esquerdo, ou seja, aparentemente deslocado de onde ele é mais útil para o time, em dia que nosso outro maestro (Juninho) não estava jogando. Ou seja, no papel com Diego Souza como pseudoponta-esquerda, quem ficou para criar no meio de campo contra um Cruzeiro retrancado, explorando os poucos contra-ataques que teve e que deles, por falhas técnicas individuais de nossos jogadores, conseguiu matar o jogo? NINGUÉM!

E o pior, também, foi a falta de cuidado em mesmo que com três cabeças de área escalados, não se tomar o devido cuidado de se marcar um craque como Montillo de perto, tal conforme deveria ser. Paga-se o preço alto da derrota, então.

Portanto, não é obra do acaso: nosso time se propôs a jogar com um falso lateral-esquerdo que viraria nos ataques meio de campo mas que, na prática, não funcionou bem, e dando-lhe espaço nesses momentos para outro falso lateral que, a meu ver, ficou confuso durante o jogo se esse mesmo a cobrir os avanços de Felipe seria Nílton ou Fellipe Bastos. E quando aparece essa dúvida, é sinal de que a escalação foi, de fato, infeliz. 

Já o oponente mineiro contou com um dia de pura maestria de seu camisa dez, aliado a um comum atacante Wellington Paulista contemplado por um golaço sobre nosso goleiro – outro em dia infeliz – e que foram eficazes em todos seus ataques: fizeram três jogadas ofensivas, marcaram três gols. Pronto: assim é que se resolve o futebol!

Não adianta o Vasco, como grupo, aparentar conforme ocorrera no último sábado de que tem o domínio das ações em campo: é preciso o tal do “algo a mais” que venho lhes dizendo faz tempo. Nos momentos cruciais esse mesmo mostra-se ausente: nas decisões de turno do campeonato carioca, por exemplo, essa carência mostrou-se latente. No que foi considerado por muitos como primeiro grande teste nesse campeonato difícil e complicado fracassamos. 

Volto à história do caminhar pelo deserto: de repente, o que era real transformou-se numa “miragem”, o otimismo deu lugar ao pessimismo, muitos dirão que as quatro vitórias iniciais foram ilusórias, bem como é ilusória a campanha de seguidas finais que esse mesmo grupo trava desde ano passado! Enfim, "foram por acaso!", na opinião de muitos. Então, tudo volta ao “ponto zero”, de forma a desconstruir toda a crença em algo bem maior que boa parte da torcida já alimentava com ela desde o início da competição.

A preocupação existe, todos sabem que devemos melhorar, mas sem considerar que uma derrota é motivo para se disseminar o caos. Muito trabalho e seriedade nessa hora...


Mais equilíbrio, menos vislumbres

Não adianta a torcida do Vasco variar de um pólo a outro em noventa minutos: ir do otimismo exacerbado ao pessimismo profundo! Também não adianta nos vislumbrarmos de que nosso time é imbatível e que tropeços como esses não irão vir! Bem como, também, não adianta fechar os olhos por conveniência ou comodismo e dizer que não precisamos de nada mais, pois isso é ignorar aos difíceis adversários que estarão em nosso caminho. O correto é continuar a evoluir em pensamento e em ações no sentido de fortalecer ainda mais o que já temos dentro claro, do que a diretoria já deixou transparecer do que ela pode, de fato, fazer pelo futebol.

Fazendo uma análise sobre nosso grupo, através desses argumentos que já lhes escrevera, considero que esse grupo é forte, comprometido, abnegado pela causa de levar o Vasco a mais conquistas, contudo, ainda precisamos do tal “algo a mais”. E mais uma vez, o acaso mostra que não existe: não adianta o torcedor ficar se iludindo de que o time esteja pronto para ser campeão, pois ainda não está. É um grupo maduro, mas que, como toda a grande obra, precisa de um “polimento” para brilhar. 

E sobre isso, não me furtarei a dar minha opinião: ainda que considere que seja uma loucura trocar o comandante agora, que ele pelo menos não escale mais o time com três cabeças de área possuindo Felipe deslocado como lateral-esquerdo no papel. Lembram-se quando eu, no meu último texto, escrevi-lhes de que achava que dificilmente Cristóvão sustentaria esse esquema de Felipe como pseudolateral que vira meio de campo quando o time ataca? Pois bem, não será uma derrota e nem uma vitória futura que mudará essa minha visão, e sim, o desempenho do time como um todo. Hoje, considero muito difícil se implantar um esquema dessa natureza. Faria o mais simples: Feltri na lateral-esquerda e Felipe no meio de campo.

Além disso, o Vasco é, hoje, um time que funciona como um todo. Quando um de nossos veteranos maestros não encontra-se em campo, e o outro fica confuso entre ser lateral ou meio de campo, o poder de criação mina. Isso fora o deslocamento de Diego Souza como pseudoponta, de forma como esse jogador gosta de ficar acomodado nesse lado de campo: ou seja, se a bola chega nele, o mesmo participa do jogo; senão, que se lasque o meio de campo para que lhe entregue a bola para que, em seus lampejos de camisa dez, possa fazer uma jogada bonita, um golaço ou coisa parecida, e dali colocar na cabeça de muitos que compensou os aproximados vinte jogos anteriores no qual ele NADA jogou. 

Junte-se à isso a parte mais destoante de nosso time titular: Eder Luís, recém-contratado em definitivo junto a Fellipe Bastos, em mais uma péssima exibição. Portanto, não há grupo equilibrado que sustente um desfalque importante, um jogador inteligente deslocado no papel para onde ele menos produz e com um uma obrigação a mais de se alternar entre lateral e meia em detrimento da liberdade de ser e pensar somente como meia criador, um pseudocraque deslocado e fingindo estar participando do jogo, e finalmente, um velocista que está, ainda por cima, em péssima fase.

E também é pura ilusão acharmos que o treinador faz o certo ao tirar o enrolado Éder Luís para colocar Carlos Alberto no time: são dois jogadores com características MUITO diferentes. Haveria de se ter, por exemplo, um William Barbio mais maduro e letal para que lhe fizesse “sombra” nessas horas, e não esse mesmo Barbio que se enrola, também, até mesmo para driblar um goleiro, tal como ocorrera ao final do jogo.

Portanto, volto ao jargão “hora certa para perder”: prefiro substituí-lo por “nada é feito por acaso”. Momento de ainda mais trabalho, visando a minimização dos erros que esse bom time, contudo ainda oscilante, apresenta.


Melhoramentos


Não adianta a torcida achar que grandes nomes virão! Ainda que meu sonho seja Nilmar (que está em vias de acertar com o colorado gaúcho) e minha segunda opção seria Borges (enconstado, praticamente, no Santos e passível de ser negociado a quem se interessar), o contestado Alecsandro – artilheiro de um toque só na bola – será ao que tudo indica nosso homem gol até o final da competição. É apostar, portanto, para que Carlos Tenório se recupere logo, volte bem para compor esse grupo e ser um reserva à altura dele, quiçá até mesmo titular no futuro.

Ainda assim, nomes para a lateral-direita serão bem vindos: ao menos um, considerando a hipótese de que Fágner será mantido. Não conheço Paulo Henrique do Paraná Club, especulado pela diretoria, assim como não conheço William Matheus, lateral-esquerdo, que chegou semana passada. São tipos dos jogadores que se mostram apostas, quando na verdade, se tivéssemos jogadores já preparados para essas posições advindos da base, esses nomes seriam dispensáveis, a não ser que se tratassem de craques, o que não me parece ser mas que prefiro aguardar.

A considerar a manutenção do que já existe, penso que alguns jogadores da base poderiam perfeitamente compor e irem se maturando junto ao grupo já experiente: Luan Garcia (zagueiro), Marlone, Luciano, Jhon Cley (meias) e Morano (atacante) seriam alguns desses nomes, além é claro do lateral-esquerdo Dieyson, que como bem falei outrora, merece ser resguardado nesse momento para não correr o risco de ser “queimado”, pois iniciou mal o campeonato quando teve chances mas, a meu ver, trata-se de uma promessa valorosa para um futuro próximo.

E conforme lhes escrevera em alguns textos anteriores: um meia de criação para suplência imediata dos maestros seria interessante. A considerar que nomes na série A são escassos, o passo seria, então, procurá-los na série B ou no futebol latino. Lorenzetti, por exemplo, da La U recentemente eliminada da Copa Libertadores da América seria um nome interessante. Romagnoli, que faz uma ótima temporada no Torneo Clausura do campeonato argentino, também poderia ser reconsiderado, já que Abelairas foi-se embora, assim com Allan.


“Toque final”

Um relatório elaborado pela Pluri Consultoria e apresentado em um Simpósio sobre Futebol norteia para os pontos críticos que um clube brasileiro deva atacar para ter sua marca internacionalizada, tornando-se o que considera como um “superclube”.

Com certeza e tomando base nesses relatórios feitos sobre dados por amostragem e que generalizam o tamanho da torcida como um todo, eu vejo que essa questão a respeito da mercantilização do nosso futebol está se tornando a cada dia mais séria e que NINGUÉM no Vasco, particularmente, faz nada para poder contra-argumentar sob pena de perda total de nosso poder perante a iminente e cada vez mais nítida polarização do futebol brasileiro em duas ou, no máximo, quatro marcas, excetuando-se a nossa lamentavelmente.

Para que o estimado leitor se tenha uma ideia, o Vasco aparece junto a clubes provincianos na divisa desse gráfico, como quarto pólo somente mais forte das marcas, atrás de Flamengo e Corínthians (cada um deles em um pólo só), São Paulo e Palmeiras (no terceiro pólo, juntos), e depois Vasco, Cruzeiro, Grêmio e Internacional, no mesmo pólo, com uma percentagem MENOR do que o pólo que diz torcer por clube algum.

É muito abstrato definir o tamanho estimado de uma torcida por dados coletados por amostragem, a meu ver. Quem foram os entrevstados? Quais foram os critérios? Em quantas cidades fora feita a pesquisa? Qual foi o critério de seleção dessas mesmas cidades? Por que, se for o caso, as cidades de clubes provincianos foram incluídas em número igual ao número de cidades de Norte e Nordeste, por exemplo, cuja evidência de se haver mais torcedores dos clubes de Rio-São Paulo são nítidas?

Pois se dentro da amostragem você inclui cidades de clubes provincianos (Grêmio, Inter, Cruzeiro, Galo etc.) na mesma proporção de outras cidades e desconsiderando em número cidades com iminência de maior torcida para os clubes de Rio-São Paulo, essa amostra fica distorcida, e por isso em minha opinião, as últimas pesquisas têm apresentado resultados totalmente grotescos, compatibilizando a torcida do Vasco à de clubes provincianos em números de torcedores e tirando por esse norteamento a base para divisão de cotas de TV entre outras coisas piores para nós mais que hão de vir.

Seria extremamente fundamental ao clube ou a grupos abnegados pela causa a realizar um trabalho de forma a definir, em padrões mais consistentes, o tamanho e a expressão da torcida do Vasco em território nacional. Ao contrário de alguns, eu particulamente tenho ciência dessa dimensão, mas não possuo (nem ninguém, hoje) dados concisos que possam ser apresentados para a imprensa ou para as consultorias de que algo encontra-se errado. Alguns poucos da imprensa, inclusive, já levataram essa causa pró-Vasco: registre-se, por exemplo, os radialistas José Carlos Araújo, Luíz Penido e Eraldo Leite, que nem vascaínos são, que dirá nós, torcedores.

Não podemos mais sustentar o discurso vazio de que temos dezesseis milhões de torcedores. A Internet como ferramenta de grande profusão com suas redes sociais (Facebook, Twitter etc) pode ser utilizada para se estimar o tamanho das torcidas. Um cadastro único do torcedor por CPF validado em uma base de dados nacional, por exemplo, e bem acompanhado de perto seria uma das formas mais eficazes em se mensurar, de fato, a veracidade desses estudos. 

E que se começasse “para ontem”, pois na medida em que o tempo for passando e a propagação vai sendo feita do que já existe, torna-se bem pior o caminho de volta no futuro, se é que ainda terá para nós, infelizmente.

 

Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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