Cristiano Mariotti

Mudar para crescer!

Corrigindo injustiças

Pelas redes sociais na última sexta-feira, a torcida do Vasco clamava pela saída de Daniel Freitas do cargo de diretor-executivo de futebol do clube. No entanto, está claro para mim que Daniel Freitas está longe de ser o culpado maior por um ainda possível “desmanche” de plantel que venha a ocorrer.

A mesma diretoria que acertou em trazer para junto de si Rodrigo Caetano em janeiro de 2009 para dar-lhe como missão reconstruir toda uma “terra devastada” (em que pouco importa, agora, ficar discutindo quem foram os culpados por tal devastamento) errou feio ao não substituí-lo à altura, logo após seu pedido de dispensa, em dezembro de 2011.

A intenção era, ao meu ver, de trazer um profissional com menos expressão, passando à essa mesma diretoria a intervir um pouco mais no futebol. Diferentemente de outrora, quando delegaram a Caetano toda a confiança e autonomia necessária para que, entre erros e acertos (muito mais), pudesse construir (em um trabalho de médio a longo prazo) um plantel que fosse capaz de disputar e vencer títulos. Como Ocimar Boliceño (esse era o nome que o Presidente sondou) foi rejeitado veementemente pela torcida, delegou-se o cargo a Daniel Freitas. Missão mais fácil de “reposição”.

E assim foi no último ano, quando culminou o planejamento com a conquista da Copa do Brasil e à disputa por igual de todas as demais competições do ano que se passou, depois de uma tenebrosa Taça Guanabara. Houve, de fato, a formação de um elenco qualificado como há muito tempo que não tínhamos e, ainda que se reconheça o tal “algo a mais” que faltou a esse grupo para que outras conquistas viessem até meados desse corrente ano, ao menos havia um trabalho já encaminhado pelo ex-diretor executivo e que poderia ser mais bem aproveitado se estivesse ao leme um substituto à sua altura, com mais preponderância e menos intervenção.

Dessa forma, os acertos e os erros que vierem a ocorrer devem ser compartilhados entre TODOS que comandam o clube: Presidente Roberto Dinamite, seus pares e Daniel Freitas, inclusive, que a meu ver aceitou um cargo mesmo sabendo, desde o princípio, que não tinha a mesma experiência e competência comprovadas de seu antecessor e que na hora em que as coisas fluíssem de forma ruim seria ele, próprio, o primeiro do “front” perante a torcida, com a diretoria em “back”, sem ao menos ter vindo a público, até então, alguém da mesma que o defendesse nesses momentos e que compartilhasse uma responsabilidade que é comum à TODOS, mais uma vez ratificando.

Ausência de reação

Um dos pecados cometidos é que o clube, até presente momento, não tem cumprido seu papel de proatividade perante as iminentes perdas que surgem e que são normais no futebol.

É importante para uma gestão de futebol competente o constante monitoramento do mercado da bola e o trabalho com uma rede de contatos (networking) capaz de antever perdas em seu plantel e selecionar jogadores de qualidade dentre as opções investigadas no mercado da bola para reposição. Deixar sempre as sondagens no ar, ainda que não seja para contratação imediata, mas que é importante para o clube demonstrar interesse e presença de mercado, evidenciando assim seu nome e cooptando, no futuro próximo, bons negócios. Nesse cenário, é importante relegar-se o monopólio, trabalhar-se com as portas abertas para uma rede de empresários sérios, que tragam sempre soluções pontuais, de forma que todos saiam ganhando.

Ao que se apresenta para o torcedor, hoje, o Vasco não enxerga dessa forma. Soluções são tomadas de última hora e, muitas vezes, debatidas à exaustão desnecessária para se resolver coisas simples e que, no final, resultam em escolhas previsíveis. Não há o devido monitoramento proativo e maior abertura de horizontes para os mercados alternativos como o futebol argentino, chileno ou uruguaio, para jogadores que são vistos como soluções, e não como apostas como foram os casos de Chaparro (não disse mais ao que veio, desde então) e Abelairas (foi-se embora sem que, ao menos, soubéssemos se era ou não com qualidade para estar no Vasco).

Nesse quadro e sob o discurso de responsabilidade financeira, vão-se embora soluções que poderiam ser factíveis ao clube, tais como Montillo (em 2010), Dátolo (fevereiro desse ano) e Diego Forlán (há poucos dias atrás). Bastaria se economizar, com todo o respeito aos profissionais, o que se paga por Pipico, Diego Rosa, Chaparro, Jonathan, o que se pagou até então por Abelairas para se arcar com o salário de um atleta que tenha demonstrado bons serviços em clubes como LaU (Aranguiz, Canales ou Lorenzetti), por exemplo. Teriam, com certeza, muito mais chances de vingarem no clube do que esses tais citados, eternos reservas, que até presente momento nada acrescentam.

Reposição já!

Esse assunto já está muito repercutido. Fico com o texto (clique aqui) do ótimo jornalista Lédio Carmona “E agora, Dinamite?”, que de forma cirúrgica reflete todo o pensamento de um torcedor que voltou a sonhar com conquistas de um ano e meio para cá. Considerando que os jogadores citados em seu texto foram embora porque o clube pouco ou nada tinha para fazer ou que não havia como segurar perante uma proposta considerada “irrecusável”, o que deve-se fazer é repor e COM URGÊNCIA.

Analisando o panorama desde a conquista da Copa do Brasil, constatamos que do elenco campeão da Copa do Brasil: Allan, Ânderson Martins, Ramón, Jumar, Rômulo, Élton e Bernardo já deixaram ao clube. Diego Souza pode ser o próximo. Desses todos citados, com certeza e ainda que não sejam insubstituíveis, a maioria deles se não foi titular mostrou-se muito útil ao time em vários momentos. Em troca, vieram Rodolpho, Fabrício, Thiago Feltri, Barbio, Juninho e Tenório (lesionado). Com exceção do Reizinho, não houve até o momento, de uma forma geral, reposições que viabilizassem a manutenção ou o aumento de qualidade daquele plantel campeão.

Deve-se ousar mais, se é que a diretoria deseje que o Vasco dispute o título. Deve-se cobrar para que o discurso de que “soluções seriam procuradas ao invés de apostas” possa ser real e que, de fato, as coisas assim transcorram. Considerando-se que nem nosso técnico é o mesmo daquela conquista memorável e trata-se de alguém em quem boa parte da torcida ainda não crê que seja capaz, seria salutar entregar-lhe material humano capaz de recompor o plantel e realizar seu trabalho, ainda questionado por muitos (inclusive eu, em certas ocasiões).

A rigor, precisamos de dois laterais (um para cada lado), um volante de qualidade, um meio-campo ofensivo e um atacante. Para pensar em título. Se for para, no máximo, tentar uma posição honrosa (o que considero MUITO POUCO para Vasco), então que se deixe como está ao invés de se gastar dinheiro com “qualquer um”.

Com todo respeito, mais uma vez, aos profissionais citados: Pipico e William Matheus são APOSTAS. NÃO SÃO reposições. Wendell ex-Santos que poderá estar chegando é bom jogador mas que NÃO SERVE para substituir a uma possível saída de Diego Souza (quando esse resolve jogar futebol). Tampouco Fernandinho, do São Paulo, que além de ser de outra posição e estar em baixa, recusou-se a jogar por nosso clube quando estávamos vivenciando o calvário da série B, não merecendo (tal como outros) vestir hoje nossa camisa.

Enfrentamento das dificuldades

O problema, hoje, é saber o que o clube considera como barato ou caro, ainda que o clube tenha ganhado algum dinheiro com as vendas que foram realizadas.

Qual é o teto aceitável a ser pago a um atleta de qualidade que venha para RESOLVER o problema? Quanto é o valor de transação considerado viável para aquisições? Se Diego Fórlan (que foi para o Internacional) e Darío Conca (que pode ir para o Fluminense ou outro clube brasileiro) ou até mesmo Nilmar são considerados caros, quem é considerado dentro dos padrões?

É a partir desse norteamento que o Vasco, através de sua diretoria, precisa deixar de uma vez por todas claro para nós, torcedores, para que saibamos (com todo direito de quem deseja o melhor de nosso clube) o que há por vir.

Se o problema ainda é grana, que se observe os mercados alternativos ou algum jogador de qualidade da série B, que esteja se destacando, com mais possibilidade que se dê certo vestindo a camisa do Vasco a custos que o clube considere dentro de suas pretensões. Dica: o meia Rodriguinho, do América-MG, para quem não acompanha vem sendo o destaque dos mineiros na competição. Por que não observar?

Podem existir, inclusive ao meio dessa prospecção por talentos, jogadores brasileiros atuando na Europa que estejam desejando retornar ao futebol brasileiro. Há necessidade em se investigar opções que resolvam os problemas, mas NUNCA de última hora como o Vasco poderá fazer agora e sob pressão, mais uma vez.

E somente para encerrar essas considerações sobre reposição: para apostar, que seja COM A BASE. Dieyson, Jhon Cley, Luciano, Marlone, Morano, Renato Augusto, Yago entre outros. Luan Garcia, a quem tanto defendo, inclusive é o melhor zagueiro formado pelo clube nas últimas décadas e merece a chance de comprovar seu talento dentre os profissionais.

Figueirense 1 vs 1 Vasco da Gama


Dadas as circunstâncias das perdas e dos desfalques aliadas à dificuldade que temos, nos últimos tempos, em derrotar esse adversário e principalmente em seu estádio, o empate é considerado bom resultado.

Contudo, se eu pegasse os comentários que eu fiz a uns meses atrás e compará-los com os desse jogo, veremos que são praticamente os mesmos e que toda a torcida já conhece: time inconstante, bipolar, joga bem no primeiro tempo, mal no segundo tempo, técnico criticado por mexer tarde demais no time – ainda que considere que nesse jogo havia muito pouco a fazer devido à sua falta de grandes opões para se armar o banco de reservas e defesa vacilante com Dedé ainda fora de seu melhor momento físico e técnico – resultou, inclusive, no gol de empate adversário.

O time do Vasco que iniciou o jogo não é para terminar a rodada líder. Tanto é verdade que, de fato, não terminou. Tampouco ser campeão. E sobre isso, recorremos às considerações feitas outrora nesse texto, para que esse sonho da torcida seja possível. O time que iniciou hoje aliado aos desfalques e mais considerando a ausência futura de Diego Souza – caso venha a ocorrer – é para disputar NO MÁXIMO uma das últimas vagas na Libertadores. Nada além disso.

Ao invés de eu mirar o fundo do poço tal como era entre 2001 e 2008, eu prefiro mirar os grandes exemplos e toma-los como referencial para o time e as pretensões que queremos. Analisando essas primeiras rodadas, já sabemos que Fluminense e Atlético-MG têm bons times e brigarão por esse título. Acrescento a essa disputa o Internacional e o São Paulo, com Ney Franco agora de técnico. Para o vascaíno que pensa grande, é nesse patamar que o clube deve estar. E para tanto, há de se trabalhar arduamente.

O exemplo do ex-virgem das Américas


“O trabalho do Corínthians não começou agora, comigo. Começou desde 04 de dezembro de 2007”. (Presidente do Corínthians, em entrevista à Fox Sports após o título da última quarta-feira).

Realmente, ao invés de só reconhecermos toda a parte ruim dessa relação entre Corínthians e CBF nos últimos tempos, devemos fazer uma análise e ressaltarmos, também, o quanto de trabalho houve para que o clube paulista chegasse ao patamar que chegou. Lá, não houve recorrentes rumores sobre “herança maldita” nem sobre “forças ocultas”, mesmo porque os mesmos homens que rebaixaram o clube do Parque São Jorge assumiram e “deram a cara” para reconstruir tudo o que devastaram. Não houve “jogo de empurra” e nem disputas vaidosas exorbitantes: houve trabalho árduo, mas cirúrgico. Houve pensamento voltado somente à reerguer o clube, e não “pelo bem do futebol paulista”. Houve trabalho sério dentro dos bastidores do futebol, de representatividade do clube junto às entidades. Houve investimento em marketing junto à sua torcida e valorização de sua marca, a mais poderosa do Brasil hoje.

Enfim, dentre tantas mazelas no qual já comentara, uma coisa é fato: souberam vencer dentro e fora de campo, primordial para qualquer clube conquistar títulos nos dias atuais.

A receita corintiana está entregue para quem quiser e tiver a competência de seguir. Depende de nós a mudança...

Vamos mudar?

 

Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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