Cristiano Mariotti

Eu abro mão! E os senhores?!

 

"Eu abro mão!"
Crédito da foto: Cristiano

Poderia começar com a afirmação clássica de que “o dia em que o Vasco for unido, ele será invencível”. Mas prefiro remetermo-nos a uma reflexão muito mais profunda sobre esse tema. Pois para haver união, há de se relegar uma série de coisas em favor de uma causa. No Vasco, não é diferente. Os tempos passam, mas as pessoas teimam em não enxergar o óbvio da questão: JAMAIS haverá união, pacto, trégua, conciliação de interesses ou seja lá como o estimado leitor quiser chamar enquanto interesses pessoais, separatismo, sentimentos de revanchismo, de vaidades, política de centralização de poder e desrespeito ao que é a instituição e à sua história estiverem acima dos interesses do clube. Na verdade, o Vasco não precisa de filosofias desse tipo que, a cada dia que passa, tornam-se utópicas. O que o Vasco precisa é de pessoas sérias que queiram defender a instituição e trabalhar, dar seu suor arduamente por ela, colocando-a acima de qualquer outro interesse que não seja pró-Vasco.

A história registra

Na década de 1980 entre os anos 83 e 85, Calçada era o Presidente, após ter vencido uma eleição sobre Eurico Miranda em 1982. Durante seu triênio de mandato à frente do Vasco, o clube estava em situação muito difícil, semelhante à que se encontra hoje em dia, com direito a corte de serviços de telefonia. Ambos tinham claras e interessantes propostas para o Vasco, tendo em Calçada a preocupação com o patrimônio do clube como seu ponto alto e em Eurico a preocupação com a força e representatividade do clube perante a mídia esportiva nos mais diversos esportes: futebol, em especial. A matéria que segue adiante mostra o relato das eleições vascaínas do dia 12 de novembro de 1985, reportagem publicada pelo Jornal do Brasil.

A primeira grande renúncia

Calçada vs Eurico

Após mais uma vitória nas urnas nas eleições de 1985 sobre o mesmo adversário, Calçada, então, resolve renunciar um pouco de suas vaidades e convida a seu principal oponente, Eurico Miranda, para assumir ao poder junto com ele, deixando-lhe livre para, praticamente, ser o Presidente de fato do clube. Foi a primeira união de duas grandes forças políticas envolvendo vascaínos qualificados em ambos os lados em favor da instituição. Calçada, ao que consta, como moderador, e Eurico, como articulador e responsável pela representação do Vasco diante dos adversários.

Os méritos dos erros e acertos dessa gestão conjugada NÃO É o foco da questão, e sim, a reflexão do que fora aquele gesto de uma união em torno de uma causa. Muitos diziam na época que o Vasco era ingovernável, que iria virar a quarta força do Rio de Janeiro. E na parceria do que muitos achavam improvável (ainda que tenham pertencido à mesma chapa nas eleições presidenciais de 1979, quando Eurico declarou Calçada como um dos seis “homens de ouro” da campanha feita pela oposição) surgiu de fato uma das épocas mais gloriosas para o Vasco entre 1986 e 2000. Mais uma vez: não tentem achar política partidária nesse meio. Estou lhes relatando somente fatos, e contra eles NÃO HÁ argumentos. Foram glórias no futebol (MUITO MAIS do que tristezas), no Remo, no Basquete, no Futsal, crescimento da torcida (ainda que os institutos de pesquisa não se curvem quanto a isso) e, acima de tudo, RESPEITO pela instituição. Deixamos para trás temores de outrora, como insucessos perante de nosso maior oponente de hoje e que os vascaínos ainda custam a enxergar que é o Fluminense.

A chance desperdiçada

Mas como tudo que é bom também tem seu prazo de validade, passou-se a época. Heranças de torpezas advindas de erros cometidos (não quero entrar nesses méritos, estou somente relatando resultados e NÃO política) foram um fado a ser carregado para Eurico Miranda, agora Presidente e sem Calçada ao seu lado. Começava dali, em 2001, uma fase difícil: tal como a parábola da fartura e da miséria no Egito Antigo, no Vasco não foi diferente. Entre 2001 e 2008, um título somente, alguns vice-campeonatos, vergonhas em derrotas que deixaram cicatrizes históricas, ameaças de rebaixamento e consumada já nos primeiros seis meses da gestão atual, Roberto Dinamite.

Eurico Miranda poderia ter aberto mão e renunciado ao seu desejo de se perpetuar enquanto vivo à Presidência, mas preferiu o caminho da continuidade do poder e, junto com ela, do desgaste cada vez maior de sua imagem perante ao clube, à torcida e à imprensa no geral. Não soube a hora correta de se retirar e dar vez a alguém de sua confiança que pudesse, inclusive, renovar as ideias, consertar seus erros e introduzir modificações para melhor. Com sua escolha, o Vasco vivenciou anos difíceis, cujo os quais não vale a pena repetir, mas que foram de fato um custo pela falta de renovação a qual todo grande clube precisa, e com o Vasco, não é diferente.

Os fatos contam a pior das renúncias

Roberto Dinamite foi eleito pelo povo e para o povo vascaíno. Foi adorado tal como um “Messias” que vinha para nos tirar de uma “época de trevas”. Foi-lhe tolerado toda sua incompetência administrativa durante um tempo, sob os argumentos de que “forças ocultas” estavam por prejudicar a sua gestão, ou então, a tal “herança maldita” deixada pelo seu antecessor, discurso propagado e que hoje serve muito mais como argumento para esconder seus erros. 

Roberto recorreu a um modelo de gestão profissional no futebol, deu certo, teve como ápice o ano de 2011 com a conquista da Copa do Brasil e resgate da competitividade em todas as competições disputadas, excetuando a horrenda Taça Guanabara. No entanto, o gosto e a vaidade pelo poder, ao que parece, subiram-lhe a cabeça, ao ponto de renunciar erradamente a tudo que havia implantado de bom com seus pares. 

Brigas, intrigas, vaidades nessa história muito mais fomentadas e, hoje, o quadro mostra a regressão ao mesmo modelo vaidoso, egocêntrico e centralizador combatido na época em que Roberto Dinamite era oposição. Prefere ao que parece o caminho do isolamento. O mesmo Roberto que, no ano marcado pelas escolhas infelizes, mostra que tudo aquilo que pensava de seu antecessor está, aos poucos, sendo praticado por ele mesmo, ao ponto de até relegar um de seus pensamentos que era contrário ao da perpetuação de pessoas no poder e já pensar em se reeleger Presidente em 2014.

Nas oposições assim como na diretoria, falta união. Não dentro dos grupos, mas sim, de um grupo com outro. Alguns são radicais: SEQUER admitem conversa com quem está no comando. Na torcida, divisão até para saber quem era melhor: Eurico ou Roberto. Comentaristas esportivos idem, apesar de serem muito mais cuidadosos em seus discursos dadas duas posições perante a mídia. Nesse cenário todo de incertezas, o correto é que regredimos em nove meses mais do que dez anos: para a torcida achincalhada resta a divisão, essa mesma torcida dita por muitos como “chata”, essa mesma torcida que como disse o Mestre Hélio Ricardo Rainho é a mesma que “entubou” uma segunda divisão e foi Vasco acima de tudo e àquela que foi pioneira em sua história, construindo o templo que, para muitos, não serve como praça de desportos para grandes clássicos, mas que é UM DOS ÚNICOS estádios em condições de abrigar um grande jogo aqui no Rio de Janeiro. “Pelo bem do futebol do Rio de Janeiro”, abrigou mais um semana passada: o de nosso principal oponente e que poderá ser o campeão brasileiro desse ano, igualando-se a nós, infelizmente.

E o futuro, o que será?

O correto é que não há UM SALVADOR: há UMA PÁTRIA a ser salva! Como colocou muito bem meu companheiro Marcus Bragança em seu belo texto “A PÁTRIA OU O SALVADOR?”, eu respondo-lhe dizendo: AO VASCO, TUDO! O que falta hoje é a RENÚNCIA DE TODOS! Inclusive de Roberto, Presidente eleito pelos associados sob discursos bem diferentes daquilo que pratica nos dias atuais.

Não é a renúncia de pessoas: é a renúncia de interesses políticos e pessoais, vaidades, egocentrismos, separatismos, politicagem. É colocar o VASCO EM PRIMEIRO LUGAR e saber ser mais coeso diante das dificuldades administrativas. É ser mais sábio a ponto de tentar, mais uma vez na história, uma virada, tal como nos conclamamos. O mesmo cenário outrora vivido é o que encontramos hoje: sem dinheiro e sem união. Ou, ao menos, conciliação entre as divergências para convergência pelo que há de melhor entre elas e em favor do Vasco. A diferença é que sem dinheiro ainda se pode haver salvação se houver abnegação e trabalho pela causa. Sem união, não há forças concentradas contra quem eu já chamei de “os verdadeiros inimigos do Vasco”.

O Vasco não foi construído somente por uma pessoa ou por um grupo: e sim, por gestos de SUPERAÇÃO, parecidos com a carta histórica contra o racismo e pelos menos favorecidos economicamente. Gestos como o da união na época entre duas partes para se construir em resultados memoráveis. Calçada sem Eurico NÃO foi o Presidente que o Vasco merecia. Eurico sem Calçada idem. E eles sem o Vasco, NADA seriam em termos de reconhecimento esportivo. O Vasco, com eles no comando perante seus adversários, foi sinônimo de RESPEITO! RESPEITO esse que essa mesma torcida que exigiu em épocas anteriores quer hoje, exige hoje.

É contigo, Presidente!

Roberto Dinamite é O PRESIDENTE: é a pessoa que responde pelo clube hoje, e como tal, deve satisfazer ao que o vascaíno deseja. Não afirmo somente com relação a vitórias, títulos e glórias: RESPEITO, ATITUDE, PIONEIRISMO, NÃO-SUBMISSÃO entre outras coisas que combinam, sim, com a história mais do que centenária de um clube que SEMPRE lutou contra tudo e contra todos!

Dele, Presidente, deve partir a iniciativa de exercer aquilo que exibiu em propaganda da campanha “Eu abro mão!” e renunciar. Não “abrir mão” de se ter um clube esportivo mais completo ao invés de somente futebol. “Abrir mão” e não somente à toda prática no qual é alvo de críticas em sua gestão, como também a TODO esse separatismo e buscar a conciliação. Tal como fez o ex-Presidente Calçada em 1986 que é um dos que lhe apoia, buscar até mesmo nas oposições se preciso for e tal como manifestou-se seu grupo ao término da apuração das eleições em agosto de 2011, já entrando na madrugada do dia 3 (três). Apoio com pessoas que realmente SEJAM VASCO e que queiram ajudar AO VASCO longe de guerrilhas políticas. Ao contrário do cenário terrível que perspectivamos para 2013: esse, sim, ao que parece é um cenário muito mais difícil de aturar do que imaginarmos que, um dia, pessoas de bem e que estejam ao lado do Vasco sem partidarismo nem revanchismo possam ajudar ao clube, unidas em torno de um mesmo ideal.

“Toques finais”

1º) Segue Marcelo de Oliveira com seu grupo fraco sem conseguir ajeitar a marcação do time vascaíno, principalmente pelos lados do campo, especialmente o esquerdo onde perdemos o jogo para o Botafogo na última quinta-feira. Mantenho e repito o que afirmei na semana passada: corre risco de não terminar sequer o Brasileiro se não rever seu esquema de jogo e retrancar um pouco mais esse meio-de-campo.

2º) Carlos Alberto jogou bem como atacante, finalizou em condições todas as bolas que recebeu e fez uma boa partida jogando como atacante depois de MUITO TEMPO. Fez bem mais do que os titulares Éder Luís e Alecsandro, o que para mim, é a prova derradeira de como ambos estão muito mal. Alecsandro, em especial, que não finaliza em gol e, com isso, não chega às redes adversárias há mais de um mês.

3º) Não me atrevo e nem tenho argumentos para, depois de uma sucessão de fracassos, pedir à galera que compareça a São Januário na próxima quarta-feira. Nem me atreverei a comemorar uma vaga na Libertadores como “prêmio de consolação” a um campeonato cuja disputa acabou cedo pelos próprios erros e depois de um ano de desordem como foi, em especial, nesse segundo semestre. Mas considero, sim, que pelo melhor devemos torcer, e por isso que ainda insisto, deverei comparecer a São Januário diante do Internacional e que venha a vitória e, com ela, a esperança de ainda conseguir essa vaga, até mesmo pensando no lado financeiro do clube e no prejuízo (técnico e de respeito, também) que proporcionará se não estiver classificado à Libertadores no próximo ano.

4º) Deixo uma frase extraída do Twitter de meu companheiro Júlio César Teixeira como reflexão: “@jctm1 melhor ser rejeitado por estar sendo sincero que ser aceito por hipocrisia”. Entendam como quiserem...

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Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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