Cristiano Mariotti

As migalhas ao invés do banquete!

 

Contente com migalhas?
Crédito da foto: SuperVasco

Honestamente, não estava em minha pretensão escrever algo sobre Vasco ao final dessa rodada sem graça e marcada por mais um título do rival tricolor inescrupuloso fundido à empresa do plano de saúde que lhe dá suporte para conquistar títulos. Mais triste ao saber que, ao cumprirmos nosso papel, mais uma vez por questão de dignidade e respeito a nós mesmos e à nossa belíssima história, acabamos cooperando indiretamente para que seu feito se concretizasse mais rapidamente. 

Na realidade, não fomos nós que pusemos a taça nas mãos deles. Verdade seja dita: a torcida do Fluminense NÃO tem culpa de ver seu clube alcançando vitórias, títulos e glórias “somente porque” possui uma empresa que lhe dá aporte para tudo isso. Até mesmo porque NÃO é somente por isso que o Fluminense foi campeão, e sim, por além disso eles terem sabido amadurecer uma gestão que antes se preocupava somente em gastar por gastar e que, hoje, gastam estrategicamente e sabem aplicar em patrimônio e na formação de novos atletas, arrecadando também com suas vendas recentes. Estivéssemos no lugar deles, endividados mas com dinheiro advindo de uma empresa e com um diretor-executivo (aquele mesmo que nosso Presidente NÃO FEZ muita questão em segurar no final do ano passado, lembram-se dele?!), estaríamos comemorando da mesma forma, com o mesmo orgulho, cantarolando em “verso e prosa” e sacudindo essa cidade, ostentando o já conhecido velho discurso que hoje, particularmente para mim, soa como uma demagogia de que “o sentimento não pode parar”. Como aliás, jamais parou pelo menos para mim...

Tanto não parou que hoje lhes escrevo muito triste, com lágrimas nos olhos inclusive, admitindo que ao nosso amado clube é sempre esse o papel que tem nos restado. Ser “bonzinho”, ser “amável”, aceitar sempre a derrota com a desculpa de que o outro tem e nós não, aceitando sempre esse discurso como verdadeiro e ancorando nosso sentimento já tão sofrido por épocas e mais épocas de fracasso sob discursos de que “assim é o esporte” e deve sempre haver um ganhador. E nós? Nosso dia, quando chegará e se é que chegará um dia? Vai continuar sempre relegado às conquistas rivais até quando? Até que ponto torna-se normal a frustração?

O relacionamento entre um clube e seu torcedor é como uma relação de pai e mãe com filho: incondicional. O amor conjugal é condicional. O paternal, não. E o clube de futebol para nós é como se fosse esse amor paternal. Tal como na alegria e na doença, ganhando e perdendo levamo-los até a morte. Ninguém em sã consciência mudará de clube por conta de mais uma grande decepção, proporcional ao que esperávamos que houvesse e cujo sonho foi desconstruído por esses mesmos da atual diretoria que justifica tamanha decepção de todos hoje com discursos vazios, gerundismos e promessas de que “um dia irá melhorar”. Escrevera, inclusive, um texto cujo título por si só já expressava tudo aquilo que sonhava junto com os estimados leitores: “A esperança pelo melhor que está por vir”. Não veio: paciência! Mas temos TODOS o direito de nos manifestarmos, até mesmo porque é sábio quem sabe como desconstruir um sistema falho e reconstruir com mais sabedoria através de seu manifesto pacífico e do poder de argumentação e de questionamentos cirúrgicos. Foi assim que evitamos outro rebaixamento em maio de 2010. Foi assim que levantamos o tom contra uma ridícula Taça Guanabara em 2011. E é assim que devemos proceder agora. Calado para mim, sinceramente, não dá...

Olhar para o amanhã e cobrar de quem nos representa hoje é o que podemos fazer, além das mensalidades de sócio em dia, dos produtos oficiais e de tantas outras coisas que procuramos fazer pelo bem do Vasco. O corrente ano acabou. Não hoje, e sim, no momento em que a perda de qualidade e desvirtuação do foco não foram combatidos com a reposição das mesmas perdas em qualidade suficiente e com a recolocação de nossa maior meta no título. Sempre que defendi que pensar somente em “Libertadores era pequeno”, muita gente não entendeu tal colocação. Hoje, devem presenciar o que resulta tal pensamento conformista: quem tem condições, pensamento para frente e foca no título, tem mais chances de vencer e, se não conseguir por razões que a esportividade é capaz de explicar, ao menos chega entre os primeiros e é brindado com um “prêmio de consolação” pelo trabalho realizado. 

Quem limita seus anseios, seus desejos e recolhe-se à insignificância de “tentar somente uma vaga no G4”, sustentando o discurso de N rodadas em tal bloco, possui mais chances de não chegar. É questão somente de pensamento. Enquanto uns sustentam o pensamento de progresso constante, outros se apequenam e começam a achar “sensacional” determinadas situações em que, num passado não muito distante, tais situações eram defendidas por essas mesmas pessoas que hoje se apegam a esse discurso de “reconhecimento de nossas limitações”. Mudança total de paradigma. Antes, não valia sequer ser vice. Hoje, terminar em quarto e ainda ter que encarar uma pré-Libertadores poderia ser o êxtase para muitos. Pois nem isso tivemos capacidade e de nada adianta mais recorrer ao que era óbvio para quem entende um pouco de futebol.

E enquanto discutimos o que temos e o que não temos, o porquê somos sempre do bloco do “quase” e condenados a presenciar às festas de rivais, refletimos hoje e caímos na consciência de que sequer possuímos a real consciência do que será de nós, nesse cenário arquitetado, daqui a três meses, mais especificamente, em 2013. Enquanto o rival é campeão tendo dinheiro, diretor, técnico e time, perguntamo-nos se ao menos teremos nossa espera por dias melhores recompensada com um “renascer das cinzas”? Aliás, mais um renascer. Só que, dessa vez, sem algo de concreto que me permita passar-lhes o mínimo de esperança por dias melhores. Infelizmente...

Está na história

Em seu discurso de posse ocorrido em janeiro de 1996, o então Presidente eleito do Fluminense Gil Carneiro de Mendonça deixava nas entrelinhas para todos que o acompanhavam que em sua gestão priorizaria a conservação do patrimônio do clube como um todo e não o futebol que é verdadeiramente o “carro-chefe” e o “trem-pagador” dos clubes grandes brasileiros, razão óbvia por ser o esporte de maior apelo popular no mundo e por essa razão ser, mercadologicamente, o único capaz hoje de gerar grandes receitas e elevar o nome e o patrimônio da instituição, como ontem elevou (mais uma vez) seu clube após a conquista de mais um título justamente no futebol.

Segundo registra o site tricolor Sempre Flu, Gil Carneiro haveria proferido em seu discurso de posse que “é uma pena que o Fluminense tenha Futebol Clube no nome”, pois segundo a mesma fonte, o Presidente eleito “odiava futebol... sua primeira providência foi terceirizar futebol. Entregou tudo nas mãos de Walquir Pimentel, que já tinha dirigido o futebol tricolor em 1991 ou 92”. Não precisamos nem dizer que seu descaso com esse setor do clube iniciou uma era de trevas para o clube tricolor e os sucessivos rebaixamentos com direito a algumas “viradas de mesa” que até hoje marcam negativamente sua história. Viradas de mesa apoiadas pela diretoria do próprio Vasco na época, em que Calçada era Presidente e Eurico Miranda seu VP de Futebol.

Anos mais tarde, Eurico – eleito em novembro de 2000 Presidente do Vasco para o triênio 2001-2003 e, posteriormente, reeleito para o triênio 2004-2006 e 2007-2009 sendo essa última gestão interrompida por força judicial – utilizava a bravata de que “o Vasco é mais do que um time de futebol” com o intuito de justificar aos seus erros cometidos em um passado não tão distante ainda ao lado de Calçada, e como justificativa para a formação de times de futebol fracos agora como Presidente. Times esses inexpressivos e que relegavam ao clube ao papel de coadjuvante nas principais competições nacionais de nosso esporte bretão. O Vasco não tinha mais dinheiro, estava empenhado em dívidas trabalhistas, como até hoje está, não havia patrocínio capaz de montar um time de futebol competitivo e, por essa razão, ainda que o clube estivesse bem no Remo (esporte raíz), por exemplo, o futebol que é o esporte capaz de mexer com a paixão do torcedor não empolgava e entristecia ao vascaíno por sentir-se alijado às principais disputas de títulos, excetuando o campeonato carioca de 2003 e os vice-campeonatos carioca de 2004 e da Copa do Brasil de 2006. 

Sobre esse “calcanhar de Aquiles”, o MUV realizava sua campanha oposicionista àquela época e promovia a disputa que foi além das urnas do clube para que o período de Eurico terminasse. Havia, especialmente, a promessa de um futebol forte e de um Vasco mais respeitado por todos, com a volta às grandes disputas e às conquistas de títulos, que era o desejado pelos vascaínos, ávidos por uma taça já que havia um hiato de mais de cinco anos sem título no momento em que Roberto Dinamite – o eleito pelo movimento como papel de outdoor perante a ex-situação – adentra ao poder. Com ele, as esperanças de pronta recuperação de um clube, sob as promessas feitas por um de seus diretores de que “haveria fila de investidores”. Ilusão que logo foi desconstruída ao primeiro mês da nova gestão após o próprio Presidente Roberto proferir, ao contrário do que esse tal diretor prometera outrora, que o Vasco não teria condições de fazer grandes investimentos naquele momento.

Antes de prosseguir, apenas gostaria de deixar-lhes, de uma vez por todas, de forma clara que SOU CONTRA o Vasco FC. Contudo, reconheço que a prioridade nos clubes de grande expressividade popular deva ser esse esporte. Pois em ambas as citações acima está provado que o futebol é o que comanda ao crescimento de um clube. Isto posto, de forma contrária a quem comandava ao Vasco anteriormente e que utilizava a bravata recorrentemente, Roberto e seus correligionários assumem ao clube e prometem um futebol forte. Aliás, sou capaz de apostar que existam pessoas na diretoria justamente com o pensamento semelhante ao do exemplo de Gil Carneiro, adaptando-o para :”é uma pena que o Vasco não tenha futebol em seu nome”.  

Pois bem: quatro anos e meio se passaram e a torcida ainda aguarda pela política de desenvolvimento sustentável desse setor do clube. Isso afora o ano eleitoral de 2011 em que a consciência de que o perpetuar no poder deveria vir de um título naquele primeiro semestre fizeram com que  Roberto ao lado de Mandarino e Rodrigo Caetano montassem, enfim, um elenco qualificado que nos levou ao título da Copa do Brasil e aos vices campeonatos carioca e brasileiro. De resto, ao pó voltamos: ocorreu o desmanche de todo um trabalho iniciado com a saída de Rodrigo Caetano e culminada com a saída de Diego Souza e Fágner em vinte de julho de 2012. Todos esses (diretor e jogadores) sem a devida reposição à altura, o que provou de fato que aquele discurso de planejamento profissional e desenvolvimento sustentável do departamento de futebol foi levado ao vento de forma impune. Muito mais indignante é constatar que, hoje, nem o trivial a atual diretoria mostra-se com forças e nos dá esperanças ainda em fazer. Em síntese, futebol forte tampouco clube forte o Vasco é. Lamentavelmente...

A polêmica da renúncia

Pelas redes sociais, um grupo de sócios vascaínos articula um outdoor a ser lançado em breve pedindo pela renúncia do atual Presidente, Roberto Dinamite. Infelizmente, tudo no Vasco é motivo para polêmica, discussões e xingamentos, sentimentos de separatismo e até de rivalidade perante nós mesmos, torcedores, tanto para quem defende ao pedido de renúncia quanto para quem não defende. Dentro da democracia que, segundo Churchill, é “o pior modelo de um sistema político excetuando-se a todos os demais existentes!”, manifestações pacíficas seja a favor ou contra devem ser respeitadas por todos, ainda que considere que antes de renunciar ao cargo seria muito mais fácil ao Presidente renunciar a certos pensamentos que possui hoje e rever seus conceitos para o bem do Vasco em detrimento do “bem do futebol do Rio de Janeiro”.

Seria muito mais fácil renunciar-se aos seus anseios de colocar amigos e pessoas próximas para trabalhar no clube, ao invés de dar preferência a quem realmente seja mais qualificado para certas posições. Seria muito mais fácil renunciar às morosidades e à zona de conforto, deixando a velha preguiça de lado e reformulando de uma vez o estatuto, tornando o clube mais profissional. Seria muito mais fácil renunciar ao seu egocentrismo e descentralizar seu poder, mais uma vez, dando condições a quem tem mais capacidade do que ele próprio para promover as mudanças que o clube necessita COM URGÊNCIA.

Seria um baita avanço renunciar às práticas de repressão como presenciadas em São Januário, quando em atitude antidemocrática houve agressões a torcedores em pleno setor social de São Januário, tendo inclusive a equipe da AmoVasco sendo impedida de gravar em seu interior e tendo meus companheiros Felipe Martins e Yedda Ferreira (a quem me solidarizei bem como  com TODOS os que se sentiram repreendidos em seu direito de expressão pacífico) sido agredidos verbalmente por um DESQUALIFICADO que se disse da diretoria do clube. Uma VERGONHA e uma REGRESSÃO ao modelo combatido em época de oposição e que, hoje, ao invés de renunciarem a esse modelo e “passar o clube a limpo”, preferem reagir dessa maneira às manifestações pacíficas de torcedores revoltados com os erros dessa mesma administração que um dia prometeu um “Novo Vasco” em sua completude. 

“Toques finais”

1º) Felipe é mais um da série em que acha na torcida a justificativa por seus próprios erros cometidos, inclusive o de jogar futevôlei no dia em que o time perdia de forma humilhante para o Bahia e cuja sua ausência foi por conta de uma suposta contusão, tão séria que não lhe impediu de exercer essa prática na praia. Tal como Rodolfo, Éder Luís e outros mais, se tivessem jogado na proporção que falam, não estaríamos no lugar em que estamos hoje. Esperar o que, no entanto, de um clube que só tem comando para expulsar aos sócios de suas dependências? Trata-se, ao meu ver, de mais um ciclo encerrado no Vasco. É questão de agradecer-lhe, ao final de temporada, por seus serviços prestados e deixar seguir sua vida e o Vasco a pensar em seu futuro contratando alguém que esteja realmente a fim de trabalhar sério pelo clube.

2º) Sinceramente, não sei se Ricardo Gomes é o mais indicado para técnico, mesmo porque não é nenhum gênio. Todavia, possui um exemplo de vida fantástico, além de ser a pessoa humana carismática e de boa-fé como todos a quem o conhecem sabe. Ricardo merece ser profissional do Vasco e a recíproca é verdadeira. Talvez como diretor-técnico, estilo Alex Ferguson, delegando as tarefas de campo junto ao time para um profissional que trabalhe junto com ele. Renê Simões, quem sabe. De qualquer forma, já seria um interessante recomeço em um momento que o Vasco precisa de profissionais como ele e que ele aparenta querer e continuar sua estória (bonita, por sinal) no Vasco. Um diretor executivo na retaguarda junto a um novo VP de Futebol, e assim, dando-lhe condições adequadas de trabalho, além de um elenco mais qualificado e enxuto. O caminho é esse.

3º) Foi POR RESPEITO ao estimado leitor que tirei inspiração de onde parecia não tê-la para colocar no ar meu compromisso semanal que possuo com você e com a equipe do SuperVasco! Aproveito o ensejo para agradecer-lhes pelo carinho demonstrado e pelo debate promovido semanalmente! Entre concordâncias e discordâncias, procuramos uma discussão em mais alto nível possível acerca dos problemas e das soluções para nosso amado clube tão carente de abnegação, de trabalho e de zelo! Muito Obrigado à todos, mais uma vez!

Finalizo minha participação semanal com a seguinte reflexão para todos: "Quem se acostuma com as migalhas, renuncia à possibilidade de se ter um banquete".

Acompanhem-me, também, pelo www.webvasco.com e pelo www.semprevasco.com  além da Rádio Mitos da Colina em www.radiomitosdacolina.com.br em parceria com o programa "Só dá Vasco", do companheiro vascaíno Márcio Santos!

Cristiano Mariotti

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Sigam-me pelo Twitter: @crismariottirj

 

cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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