Cristiano Mariotti

Sem tapar o Sol com a peneira!

 

Romario e Jhon Cley
Crédito da foto: Facebook Oficial do Romario

A vitória construída pela mescla entre os jovens vascaínos com alguns poucos experientes que voltaram a demonstrar, depois de muitos jogos, seus valores (Fernando Prass e Nílton, especialmente) deve ser encarada como mais uma chance de se consertar um grave erro cometido em um passado recente. Antes relegados à condição de terceiras ou quartas opções por profissionais que estavam em São Januário, até mesmo alguns com grandes chances de evadirem-se (Cícero, atacante, foi um exemplo), os meninos da colina ensinam aos muitos dos apaniguados “medalhões” o que é respeitar a camisa que vestem. Sem muito brilhantismo em seu futebol, porém, com brilhantismo em seus olhos, esses jovens talentos resgatam as raízes de uma instituição que há mais de quatro anos fecha espaço para formação e aproveitamento dos mesmos, colocando até pouco tempo pessoas despreparadas para gerir o que deveria ser, desde o primeiro dia dessa gestão, uma prioridade para um clube como o Vasco, sem dinheiro no cofre e endividado. Dão uma resposta à altura para quem estava, para os que estão e aos que chegarão em breve. 

Com certeza, os “sanguessugas” devem estar com muita vergonha nesse momento. Não pela vitória em si que nada significa mais nesse atual campeonato, mas por ganharem muito, reclamarem demais e jogar de menos. Fosse o futebol um esporte em que se ganha por produtividade, haveria MUITO jogador do plantel atual a dever para o Vasco, bem como outros que passaram pela Colina e que se tornaram credores. Desde o momento em que a derrocada nesse campeonato iniciou-se, escrevera bem lá atrás que havia jogador desmotivado, “sugando” em campo de quem queria alguma coisa. Seja pela falta de comando em uma instituição ainda muito desorganizado como o Vasco ou pelo atraso nos salários. O que para mim , NÃO SERVE como desculpa, e SEMPRE defendi essa tese: não está a fim de jogo, não entre em campo! Seja digno e honrado consigo mesmo e diga a verdade, mas não deixe com que a história e tradição do Vasco, ao menos em campo, passe tamanha vergonha dessa sequência imperdoável de derrotas, devendo-se tal fato a uma mistura de falta de comando fora de campo com falta de técnica e de vontade de MUITOS dentro da relva.

E que também os saudosistas de algumas pessoas que deixaram ao Vasco recentemente possam ter essa lição em mente. Jhon Cley, Marlone e Romário, certo dia há pouquíssimo tempo, foram preteridos por Diego Rosa, Chaparro e Pipico, por exemplo, dentre outros de caráter técnico não condizente com o que significa realmente o Vasco, na completude de sua história. E mais: ainda repetindo aos mesmos erros do passado e ao contrário do que possam pensar muitos desses empresários, o Vasco NÃO PODE SER  “vitrine” de jogadores inexpressivos e desprovidos de qualidade técnica colocados lá por empresários e em preterimento ao que há de melhor em nossas divisões de base. Erra a diretoria ao não saber lapidar e priorizar a quem realmente merece ser contratado, “entupindo” o elenco e tirando chance de quem já é do clube. Erraram os profissionais que lá estavam ao não preterir esses nomes em favor da mesma “prata da casa”, ao ponto de um ex-diretor do Vasco confidenciar-me, nas dependências de São Januário, que tiveram garotos como Luan, por exemplo, que subiram “na marra” para o time de cima. 

Nesse sentido, alguma coisa já caminhou, mas de forma alguma pode parar por aí. Duas coisas, no entanto, precisam ser colocadas: esse trabalho de renovação com a base deve ser duradouro e a longo prazo, de forma sustentável. Além disso, consciência e prudência são altamente necessários: NÃO se deve atribuir toda a responsabilidade aos meninos e repetir-se o mesmo erro que ocorreu com a geração 1984, em 2004, por exemplo, quando a eles foram-lhe dada a responsabilidade por vitórias, tendo como consequência a “queimação” de grande parte daqueles atletas, em sua maioria, por deficiência técnica dos próprios para atuar nos profissionais e, dali, a formação de um time fraco ao ponto de figurar entre os últimos colocados do campeonato brasileiro daquele ano. 

Considerar que todos os problemas se resolverão com tais garotos (em sua maioria, que vieram das “trevas” que eram as péssimas condições de trabalho e o desastroso “comandante” que tiveram na categoria júnior) e mais a chegada de Ricardo Gomes é leviandade. Significa recolher-se, novamente, à “zona de conforto” e ao autoengano. Há MUITO MAIS o que consertar para 2013. Passamos por problemas administrativos e políticos e fizemos campanha de time rebaixado no returno, MUITO semelhante ao nosso coirmão Palmeiras, lamentavelmente de volta à Segunda Divisão, o que já significa um “sinal de alerta em verde” de mudanças para nós. A começar fora de campo: com uma staff fortalecida, com comando renovado, mais tranquilidade passada pelos salários na medida do possível em dia, e a culminar dentro de campo, tendo nos mais experientes como Dedé, Nílton, Wendel, Juninho e Tenório a “espinha dorsal” de um novo elenco mais enxuto e servindo como referências para os jovens que desejam mostrarem seus valores. 

O fator Ricardo: problema ou solução?

A volta de Ricardo Gomes deve ser encarada como mais uma importante engrenagem no processo de reconstrução da credibilidade perdida por essa gestão. De forma alguma, não será ele o salvador, e nem a ele deve ser delegada toda a responsabilidade pelo futuro do futebol em 2013, o que nesse caso constituir-se-ia em covardia, seja por quem pensar que ele (Ricardo) tudo poderá resolver fora de campo; seja por quem o colocou no cargo e que possa vir a se acomodar e acomodar a outros favorecidos ao seu redor somente com esse fato, constituindo em um novo problema em caso dessa hipótese ocorrer e de não se definir, de forma clara e sem ambiguidade, qual será sua real função. De qualquer forma, será mais um a contribuir por ser o profissional e o exemplo de vida que é. No entanto para que Ricardo possa ser UMA DAS SOLUÇÕES, ele próprio precisa de uma staff mais forte ao seu redor para, em colegiado, lapidar ao elenco e formata-lo com dispensas, manutenções e contratações de jogadores. 

Ricardo tem a virtude de seu carisma e pode convencer a alguns jogadores a retornarem ao clube, mesmo sabendo de nossas atuais condições. E para que ele tenha mais argumentos convincentes quanto ao resgate do mínimo de organização no futebol, somente a chegada de Cristiano Koehler NÃO É suficiente: em minha visão, Daniel Freitas NÃO deveria ficar e outro diretor-executivo de futebol deveria ser contratado. Além disso, já passa da hora de se nomear, finalmente, um VP de Futebol capaz de dar comando necessário a esse setor, além de Roberto se afastar e voltar a ser “somente” o outdoor da gestão, descentralizando poderes como o modelo anterior relegado durante esse ano de dois sentimentos completamente antagônicos entre si: de “a esperança ao melhor que está (estaria) por vir” ao “Tesômetro zerado!”. 

O exemplo de 2000

“Não cheguei a assinar contrato. O Vasco demorou muito, ficamos discutindo detalhes. Só quero receber o que estão me devendo: outubro, novembro, os dezesseis dias de dezembro e alguns prêmios. [...] Não posso falar por todos, mas o meu (salário) está”. (Oswaldo de Oliveira, técnico, Jornal O Globo - 18/12/2000).

A declaração acima do atual técnico do Botafogo nos remete à duas conclusões: a eterna má gestão de recursos financeiros, mesmo na época em que havia um aporte financeiro milionário em função da parceria com o Nations Bank, e a dignidade que jogadores como Romário, Euller, Juninho e companhia tiveram ao honrar nossa camisa e arrancar para a conquista dos dois últimos títulos expressivos de uma era gloriosa de nosso amado clube. Contrariando, inclusive, a alguns jornalistas esportivos que, com certeza, deveriam estar torcendo para o pior e se decepcionado logo a seguir, como Sr. Fernando Calazans que, em sua coluna na mesma edição desse exemplar, afirmara que “vamos ver o que vai acontecer nas duas decisões contra Palmeiras e Cruzeiro”. 

Ainda que muitos desses jogadores tenham, mais tarde, corrido atrás de seus direitos de forma justa pela falta de pagamento, ao menos em campo foram responsáveis e cumpriram com seu papel. Um exemplo para os Rodolfo, Éder Luís, Alecsandro, FELIPE (esse, então, deveria ter MUITO MAIS RESPEITO, pois trata-se de uma cria do Vasco e que já passou por tempos difíceis de outrora e que, ao invés de reclamar, poderia servir como referência ao lado de Juninho para os jovens em dificuldade hoje) e outros mais que entram em campo somente com o nome e de corpo, sem a alma necessária. Muitos desses, inclusive, sequer seriam reservas daquele time ou estariam em São Januário durante a inegável gestão mais vitoriosa de nossas últimas três décadas.

Abaixo, segue o vídeo com a comemoração desse elenco após o último jogo em que muitos atuaram juntos, diante do São Caetano, em 18 de janeiro de 2001. Mesmo na dificuldade financeira, todos unidos contra o Brasil inteiro (INCLUINDO a própria mídia “toda-poderosa”) que não nos queria ver campeões, segundo os próprios jogadores em entrevista após o jogo. Reflitam sobre suas palavras e tirem suas conclusões.



E segue o enfraquecimento nos bastidores...

Em setembro de 2009, ocasião em que o Flamengo estava vindo de um mês terrível de agosto daquele ano e que o Vasco virava o turno da Série B na liderança isolada, enquanto o radialista rubro-negro Yata Ânderson da Rádio Tupi AM / FM RJ referenciava-se ao melhor, olhando para cima e, mesmo na décima posição do campeonato àquela altura, sustentava o discurso de que seu time era o time “de chegada” e focava seu pensamento positivo e sua expressividade na mídia no que havia de melhor no Flamengo até então, o seu companheiro Jorge Nunes que se diz vascaíno já afirmava, dentre outras coisas desde então, que o Vasco era fraco, que se estivesse na Série A estaria sendo rebaixado novamente entre outros adjetivos depreciativos ao time que representava o nome da instituição.

Mesmo com o título da Copa do Brasil e a brilhante campanha dentro de campo no Campeonato Brasileiro de 2011, o mesmo radialista sustentava seu discurso de apequenamento do melhor que nós tínhamos que era um time de futebol que jogou com corpo e alma e por uma causa muito justa e humana, que seria presentear a Ricardo Gomes com aquele possível título, subtraído de nós nos escusos bastidores das entidades que representam nosso futebol. Ainda durante o desmanchar desse elenco, utilizou sempre seu espaço, esbanjando seu velho conhecido negativismo, ao invés de dizer claramente o que estava de errado e dando soluções conforme qualquer formador de opinião bem qualificado deveria fazer. Nessa semana do jogo contra o Coritiba, não foi diferente, chegando ao cúmulo de ignorar a força de vontade dos jovens que estariam a representar nossa camisa no Alto da Glória, Curitiba.

De forma semelhante e não sendo a primeira vez (contra o Atlético-MG pelo primeiro turno, por exemplo, já havia ocorrido), a equipe de transmissão do SporTV aparenta fazer uma transmissão inteiramente parcial, voltada ao time da casa e à todo momento lembrando à todos dos problemas de atrasos de salários entre outras coisas ditas e repetidas pelo comentarista André Lofredo. Por inferência sobre os acontecimentos do futebol brasileiro, constatamos que o Vasco, ainda que NÃO seja o único devedor de salários e de uma série de outras obrigações e de tributos trabalhistas, é o que, com certeza, mais sofre com o “bombardeio” da mídia sobre seus problemas, tal como ocorrera há épocas atrás, mas dessa vez sem a desculpa do ex-Presidente à frente do Vasco para se tentar justificar tais ataques deliberados e, até mesmo, de forma covarde a ferir a dignidade da instituição. E mais: é o ÚNICO clube do Brasil devedor que consegue ter CEM POR CENTO de seus recebíveis penhorados, de forma passiva e sem reação de quem nos representa hoje, sendo vítima TAMBÉM de seu modelo de gestão que optou por seguir e depois coloca no passivo da “herança maldita” a culpa por sua própria escolha .

Todos esses são argumentos que nos mostram o quanto ainda estamos MEDÍOCRES em representação nos bastidores e na mídia em geral. Abaixo, seguem dois depoimentos de jornalistas famosos que deixam, de forma bem nítida a todos, o quanto o Vasco é visto e tratado de forma diferenciada e, muitas vezes para nós, da pior forma possível.



“...tem uma coisa da mídia aí, mas o Vasco é discreto! O Vascaíno é um torcedor discreto [...] E o Vasco não é de fazer isso e a imprensa muitas vezes também...” (Nesse momento, Paulo César Vasconcelos é cortado quando falava da história do Vasco, do quanto que o próprio Vasco e A IMPRENSA poderiam valorizar esse marketing vascaíno de sua própria história da luta contra o separatismo racial e social). 

“...e acaba refletindo na cobertura da mídia...” (Sobre a colocação de André Rizek de que o flamenguista e o tricolor fazem mais alarde por seus próprios clubes).

“...tem algumas coisas que surgem na imprensa para ironizar o Vasco como a história do vice. A estatística é clara: quem é o campeão dos vices? É o Flamengo, que tem muito mais vices do que o Vasco...” (comentarista ao lado de PCV, que logo a seguir, reafirma em tom irônico que o Vasco é o segundo mais vice porque é vice do Flamengo).



“Em termos de mídia o que o Chacrinha deu ao Vasco, mais do que A MÍDIA FAZ CONTRA HOJE, NEM SE COMPARA...”(Luíz Penido, ex-Rádio Tupi e atualmente no Sistema Globo de Rádio, deixando escapar a ditadura velada do silêncio à história do Vasco. Tempo de vídeo: 5:00 cravado).

E enquanto seguimos MEDÍOCRES em representação pública de forma geral, sequer conseguimos unir pensamentos em favor do Vasco para que possamos construir entre concordâncias e discordâncias naturais da vida um clube mais forte no futuro.

“Toques finais” 

1º) Enquanto o Fluminense pensa, entre outros nomes, em Ânderson Martins e o Santos e o Flamengo sondam a possibilidade de ter Diego Souza, o Vasco ao que parece insiste em sequer cogitar o primeiro nome como reforço e apresentar uma proposta concreta para reaver os direitos sobre o segundo, tendo não recebido NADA até então por sua transferência e ainda ficando sem o jogador. Em termos de reforços, planejamento ainda sendo rascunhado e cogitações de jogadores somente medianos ou com perfil técnico duvidoso. O que prova, mais uma vez, o quanto o pensamento atual parece ser tímido, desconhecendo nossos atuais diretores o GIGANTE que representam e a necessidade de um breve novo horizonte.

2º) Para quem puder, vale prestigiar os jovens talentos do sub-20 na próxima quarta-feira, às 19 horas em São Januário. Consiste na valorização de nossas raízes, de nossa história e do ao que de melhor possuímos em patrimônio. Por termos sido prejudicados na primeira partida (até mesmo nessa categoria), a vitória torna-se necessária para que avancemos em busca desse título, quem sabe.

 

Acompanhem-me, também, pelo www.webvasco.com e pelo www.semprevasco.com  além da Rádio Mitos da Colina em www.radiomitosdacolina.com.br em parceria com o programa "Só dá Vasco", do companheiro vascaíno Márcio Santos!

Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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