Cristiano Mariotti

Quando rompimento significa crescimento!

 

Enfim, terminou a agonia da torcida em um campeonato que teria tudo para ser nosso ou, no pior caso, para que disputássemos o título ponto a ponto com o Fluminense e demais times que se sustentaram nas primeiras colocações por quase todo o certame. Na verdade, foi somente para nós nesse momento uma pausa para respirarmos e colocarmos o coração em repouso, ao menos de Vasco da Gama, até o próximo mês de janeiro e o início de mais uma temporada. Óbvio que terminar o ano em quinto lugar vencendo nosso maior rival ideológico (e campeão) de momento, ainda que seja um jogo com dos dois times muito desfigurados, é sempre muito bom, mas não serve de parâmetro para dizer que dias melhores para nós hão de vir. 

Pela frieza dos números, foi a segunda melhor campanha na era de pontos corridos. Terminar vencendo com dignidade era o mínimo que esse grupo de jogadores poderia fazer pela camisa que eles defendem e, acima de tudo, por suas próprias honras pessoais. Quinto lugar é uma posição honrosa para um clube em viés de alta e organizado. No caso do Vasco e tal conforme escrevera outrora, não é para se enganar com tal colocação. Não somos o quinto melhor time do Brasil hoje, tampouco somos um clube que não precise de MUITAS melhorias. Tivemos problemas sérios administrativos, passamos por um viés de baixa durante a competição, incompetência e incapacidade em se replanejar perante as perdas que tivemos ao longo da temporada e que nos tiraram da rota de algo bem maior que poderia estar por vir. 

Temos sérios problemas de gestão pela insistência em seguir-se modelos que mostram o quanto são fracassados e que fazem mal ao Vasco. Afetam inclusive o rendimento dos profissionais responsáveis pela condução do futebol entre outras áreas diversas que deveriam funcionar melhor, mas que estão estagnadas ou entregues ao descaso. Nada disso pode ser, simplesmente ignorado pelo fato de, ainda assim e muito graças aos pontos acumulados nas onze primeiras rodadas do campeonato, termos terminado em quinto lugar. Olhar para o passado e mirar-se nessa colocação como forma de blindar aos erros da diretoria ao longo do ano é prestar um desserviço ao clube, que precisa que seus diretores repensem MUITO por um 2013 mais digno e feliz. E nem essa mesma torcida, que não se conformava com vice-campeonatos em um passado nem tão distante não pode se conformar com tudo o que ocorreu de errado em todas as áreas da instituição e deixar-se enganar por uma posição no qual não mereceríamos estar pelo que sobrou de time e de clube ao longo do ano. 

Os resultados nos trouxeram à reflexão: será que o valor monetário quaisquer que seja da venda de jogadores e cujo dinheiro de um deles (o do ex-camisa dez) não entrou no clube vale mais do que a possibilidade de um título e, com ele, marcar o nome do Presidente e de sua diretoria, comissão técnica e jogadores como os heroicos nomes de um pentacampeonato nacional? Isso afora o retorno intangível para cada um e de forma direta para a instituição? Ao final, perdemos a chance da disputa pelo título e ficamos a anos-luz de resolver aos problemas financeiros. Compensou? O Vasco precisa de mais. O próximo ano é para ser diferente. E deve ser diferente. O que norteará o futuro de nosso clube não é uma planilha de dados, retrospectos que se baseiem em “passado de trevas”, fazer política com o resultado de quinto lugar e tentar ludibriar a todos que merecíamos bem mais não fosse a culpa de A, B ou C; e sim, trabalho árduo com inteligência, sabedoria, competência e humildade em sabermos reconhecer onde erramos em 2012, e não mais repetir no próximo ano.

Os fatores externos

Sendo um pouco mais realista e de coração bem aberto é lógico que, por fantasia e pelo time que tínhamos, qualquer torcedor vascaíno veria o time disputando esse campeonato em igualdade de condições no campo. Mas sinto que fora dele nós, mais uma vez, teríamos que lutar CONTRA TUDO E CONTRA TODOS se quiséssemos vencer. Vale lembrar que a diretoria é a mesma que, ano passado, aceitou passivamente que fôssemos VERGONHOSAMENTE prejudicados nos bastidores. Desde arbitragens ruins até tabela que, tal como esse ano, nos colocava nas últimas duas rodadas para jogarmos dois clássicos cariocas seguidos, fora de nosso estádio que é São Januário. Com o agravante de que, pior do que ano passado, se tivéssemos disputando ao título jogaríamos TRÊS seguidas fora do mesmo: Coritiba, Flamengo e Fluminense. Havíamos sido prejudicados contra o Fluminense no primeiro turno deste mesmo certame e, ao que sei, NADA fora feito para tentar, ao menos, se punir o flamenguista cujo retrospecto de sua arbitragem contra jogos do Vasco é vergonhoso. Ações proativas e até mesmo a não-cessão de nosso campo para o rival que disputava ao troféu junto conosco “pelo bem do futebol carioca”, nada disso podemos esperar de quem nos preside hoje e que, com certeza, valem MUITO na hora da disputa.

Infelizmente e tal conforme certa vez dissera o ex-técnico Flávio Costa em 1950, “futebol se ganha cinquenta por cento em campo e cinquenta por cento fora de campo”. A impressão que tenho é que seria mais um ano que, em igualdade de condições no campo, não seríamos forte o suficiente para garantirmos o título fora dele. E não somente em representação do clube: em estrutura interna também. De que valeria manter Fágner, Diego Souza, Rômulo e Allan e não termos comando ou uma voz que desse credibilidade aos atletas nos momentos difíceis dos atrasos salariais? Apenas mais uma vez para reflexão: fomos campeões da Copa do Brasil ano passado com os mesmos problemas de atraso. O que mudou, então? Ao meu ver, a voz do descredenciado comandante que ocupou a pasta do melhor diretor executivo do futebol brasileiro; a intromissão do Presidente em algo que não deveria se meter que era o futebol, até mesmo porque NUNCA gerenciou NADA na vida e no máximo como Presidente o que tem que fazer é delegar poderes, permitir e cobrar de quem ele coloca no comando; e a total omissão de um VP de Futebol que renunciou ao cargo quando, na prática, já havia renunciado faz tempo.

Sem contar que TUDO no Vasco de ruim ganha repercussões MUITO MAIORES na mídia de uma forma geral. Nosso arquirrival, por exemplo, estava quase que com a energia elétrica cortada. Quase ninguém soube, no entanto. Há tempos que estamos MUITO MAL representados fora de campo. E o futebol brasileiro, infelizmente, nos traz fortes indícios de que você tenha que ser MUITO MAIS ATIVO e estar “colado” com quem comanda para que sua voz seja ouvida, seja por bem ou por mal, tal como deveria existir mais moderação por parte do clube e mais cobrança sobre tudo o que é divulgado, seja para bom ou para ruim, mas que houvesse mais vigília Há tempos a marca Vasco é mal ou sequer repercutida em muitos dos meios de comunicação que confundem a liberdade de expressão com “libertinagem” na repercussão de nosso nome.

Ruptura necessária

Durante o programa Globo Esportivo do dia 21 de novembro de 2012, o comentarista convidado rubro-negro Sérgio Du Bocage deu uma declaração que, dentre outras coisas, a Presidenta Patrícia Amorim (segundo ele) fez uma péssima administração, que os resultados em campo não foram satisfatórios e que o clube conquistou SOMENTE o campeonato carioca de forma invicto em 2011 e nada mais.

Nesse último sábado e mesmo sabendo que o jogador e seu empresário já dava a transação como concluída por todas as partes interessadas, o Presidente alvinegro Maurício Assumpção pode ter desfeito a transação do jogador Élkenson para o clube chinês Guangzhou Evergrande pelo fato de que seu clube, Botafogo, não receberia no ato da transferência os 35% da transação no qual tem direito pelos direitos econômicos do atleta.

São dois exemplos claros para os dirigentes de nosso clube. Enquanto no primeiro caso, um torcedor rubro-negro não se dá por satisfeito com somente um título conquistado em três anos, nossa diretoria e seus pares defensores nos passam a imagem de satisfação por um único título de expressão conquistado em quatro anos e meio dessa nova gestão. No segundo caso, enquanto nossos diretores que pregam o profissionalismo e vivem no amadorismo de liberar um jogador importante sem receber um só tostão no ato da transferência em sua conta corrente, o rival alvinegro mostra como deve se tratar com seriedade as negociações em uma instituição.

Tivemos um ótimo ano de 2011 muito mais por conta dos profissionais que lá estavam do que da filosofia de condução do clube. Na medida em que foram saindo, transpareceu-se a fragilidade de um regime derrotista, pouco ousado e que prepara o vascaíno para o pior. Sem competitividade e com discursos tímidos e sem ousadia, o clube vive às voltas com sua falta de estrutura e de sustentabilidade provocados por esse modelo de gestão que mira o fundo do poço como referencial que os atuais diretores vascaínos optaram por seguir. Por consequência, entregam-se às ordens de empresários monopolizadores que protegem aos seus interesses e aos de seus atletas, colocando os mais qualificados longe da Colina Histórica e fazendo de São Januário um simples laboratório para jogadores medianos ou para alguns que despontem com qualidade e sejam transferidos, ignorando a vontade do clube que deveria estar acima de todos eles. 

Portanto, antes de se pensar em pessoas, há de se repensar na filosofia de conduta como todo. O Vasco há anos adota o papel inverso: o Vasco que se enquadra e depende do modelo de gestão que vem de fora, e não os profissionais que se enquadram ao modelo do Vasco, conforme deveria ser. Até quando nos acomodaremos sob um discurso derrotista e conformista e sob uma política que não resguarda aos interesses do clube em primeiro lugar? Quando será que poderemos sonhar com uma ruptura nesses modelos contaminados atuais que agradam a todos, menos a nós próprios?

Pontuando soluções

Não somente o modelo de administração e ideológico de tratamento ao Vasco atual merecem uma análise mais profunda. É evidente que o atual modelo de gestão fiscal e financeira o inviabiliza, tanto de forma tangível como intangível. Prova disso é que conseguimos ser o ÚNICO CLUBE no Brasil com CEM POR CENTO de nossos recebíveis bloqueados. Nosso Departamento Jurídico se apega em argumentos genéricos para tentar algo pelo clube e recebe mais uma resposta negativa por parte da Justiça, o que é a prova derradeira de que necessita de uma profunda reformulação o mais rápido possível. Pois não há desenvolvimento sustentável em um clube que não tenha suas situações financeiras, fiscais e jurídicas consolidadas e com pessoas competentes. 

Há de se repensar e ter um mínimo de humildade suficiente para reconhecerem que erraram durante todo esse tempo, levando ao Vasco a uma segunda “asfixia financeira”, colocando um ponto final em culpabilizar a tal “herança maldita” e enxergarem às novas dívidas geradas. O que significaria em outra ruptura sobre um modelo de gestão fiscal e financeira que já demonstrou que tende ao fracasso, desgasta a imagem do clube e impede maiores investimentos em outros esportes que mereceriam maior zelo, como é o caso de nosso esporte-raíz Remo, relegado ao descaso e à condição de terceira força do Rio de Janeiro, o que é muito triste para quem já foi hegemônico em número de títulos conquistados. A exemplo do rival Corínthians, perde o Vasco a chance de captar recursos junto ao governo federal com a Lei de Incentivo ao Esporte por não estar em dia com seus tributos trabalhistas e fiscais. Desgasta ao clube junto aos profissionais com a necessidade de ter que se atrasar salários para que a cota do patrocínio estatal seja liberada através de uma ação judicial em sindicato, expondo a marca da pior forma possível e fazendo com que o juiz considere o clube como “insolvente”. Como um clube assim considerado pode encontrar respeito e credibilidade perante empresários, atletas, parceiros comercias e em outros adversários?

Creio que o melhor caminho seria termos um jurídico mais fortalecido, pessoas que respondessem pelo clube com maior poder de negociação e que buscasse para o Vasco a renegociação de todas as dívidas juntos ao governo e a tentativa de parcelamento de todas, destinando uma parte do líquido recebível anual para honrar tais compromissos de se pagar dívidas oriundas de gestões anteriores e da atual gestão. Que se recomeçasse estabelecendo como primordial, a partir de então, o pagamento de impostos, de tributos fiscais e que devolvessem, em primeiro lugar, a credibilidade e a imagem de organização ao clube. Quem no mercado ousa negociar com instituições que possuem a fama de não honrar seus compromissos mais básicos? Infelizmente, essa é a imagem que o Vasco passa hoje e que deverá lutar, ao meu ver com trabalho e responsabilidade, para desconstruir. Haveria, inclusive, de se relegar aos interesses políticos e colocar logo em prática a reforma do estatuto, inserindo sobre o próprio uma cláusula para garantir à instituição sua imagem imputável, que zelasse pelo compromisso do Presidente eleito de manter o clube governável e que obrigando ao próprio a responder por seus próprios erros que lesem de alguma forma ao balneário. 

“Toques finais”

1) Pensar que toda a gestão do futebol será resolvido em 2013 somente com Ricardo Gomes e a possível chegada de Cristiano Koehler é querer iludir ao invés de querer resolver. Sinceramente, continuo a clamar pela nomeação de um novo VP de Futebol e pela contratação de um novo diretor executivo. Renê Simões pode ser uma boa indicação, melhor inclusive do que outros que foram especulados com mais força até então. Ao meu ver, um novo técnico de campo deveria chegar, pois por mais que se dê forças, não vejo em Gaúcho como solução à beira do gramado, ainda que seu retrospecto tenha sido positivo. Apostaria em Jorginho, técnico promissor, fez um ótimo trabalho no Figueirense em 2011 e que se desligou do Kashima Antlhers e que já jogou com Ricardo Gomes na seleção brasileira até 1994.

2) Perder a Juninho Pernambucano nesse momento é perder o referencial de Vasco dentro de campo. Significa uma perda no aspecto técnico e moral para a instituição. É demonstrar para todos que nem nosso maior ídolo em atividade no momento consegue suportar tamanha desordem administrativa do clube, o que significa mais um forte motivo para que empresários e jogadores não cogitem em colocar seus atletas no Vasco. Sua permanência passa, então, a ser de grande importância e que a diretoria deve se esforçar com tudo que estiver ao seu alcance para que tal propósito seja cumprido. E mais: torço, inclusive, para que seja o futuro diretor executivo de futebol ou que assuma a um cargo de gerência no Vasco. Por sua inteligência, visão de futebol e identificação com nossa instituição.

3)  Se Fernando Prass for embora, tem que se investir em outro nome. Alessandro, ao meu ver, ainda não tem envergadura suficiente para assumir a titularidade ano que vem. Hélton é um desejo da parte majoritária da torcida, ainda que considere difícil sua saída do clube português nesse momento. Um centroavante de peso também é primordial além de mais um zagueiro, dois laterais e um meio-campo ofensivo. O restante é iniciar a temporada com Dedé (só voltará em março), Douglas (ainda meio verde, mas que tem qualidade), Nílton (parabéns a ele, pois fez uma belíssima temporada!), Wendel (ainda pode render muito mais do que rendeu), Tenório (precisa mostrar bem mais do que mostrou depois da última contusão, nesse final de campeonato) e Juninho (torcendo para que fique, pois é ídolo e líder) compondo a "espinha-dorsal" e o contínuo aproveitamento dos jovens oriundos da base. Dispensar uns vinte atletas e recomeçar com um elenco enxuto, com mais qualidade e menos quantidade.

4) Vale a pena conferir a entrevista feita com Pedrinho para o "Só ´Dá Vasco" e que irá ao ar hoje à noite. Simplesmente, emocionante! Uma lição de vida e de profissional que tem amor ao Vasco, criado no Vasco e que pensa no Vasco de forma especial! Em forma, jogaria FÁCIL nesse time que terminou o ano!

Acompanhem-me, também, pelo www.webvasco.com e pelo www.semprevasco.com  além da Rádio Mitos da Colina em www.radiomitosdacolina.com.br em parceria com o programa "Só dá Vasco", do companheiro vascaíno Márcio Santos!

Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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