Cristiano Mariotti

Lamentar ou trabalhar?

 

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Crédito da foto: SuperVasco

O título mundial conquistado pelo Corínthians nos serve como exemplo de modelo vencedor a ser seguido. Por mais que tenhamos enormes críticas quanto ao seu tratamento no submundo dos bastidores do futebol (arbitragem brasileira, inclusive), é bem verdade no entanto que nada é por acaso, e sim, fruto de um grande trabalho de reestruturação e profissionalização em todo seu balneário que não pode ser meramente desprezado, e sim, servir como referencial aos que têm o mínimo de inteligência e boa vontade para segui-lo. 

Contra fatos, não há argumentos: cinco anos após o rebaixamento, o Corínthians conquista títulos inéditos, arrecada as maiores verbas em bilheterias, possui uma ótima gestão de marketing, jurídica e fiscal que lhe dá suporte a um desenvolvimento sustentável, possui a torcida e toda a mídia cooptada pela credibilidade passada durante todo esse doloroso processo e, com muita justiça, chega ao ápice. 

Por outro lado o Vasco, em especial, volta ao seu estágio muito semelhante ao encontrado no começo do ano da série B, em 2009. Discute-se muito, resolve-se quase nada. Ao contrário dos gaviões, adota discursos de apequenamento e regride em sua gestão, com trâmites operacionais morosos, marketing com plano de sócios estagnado, departamento jurídico que não provê suporte e a eterna crise financeira mal resolvida. De forma antagônica, os resultados são muito claros: enquanto um é campeão do mundo o outro poderá lutar para não cair em 2013, ao que se desenha no cenário atual.

A vitória, portanto, muito mais do que predestinação é questão de escolha para quem sabe e deseja fazer. O Corínthians decidiu vencer e trilhou por esse caminho. O Vasco, se lamentar por “herança maldita” e outras coisas mais e trilhou outro. O que resta no meio desse percurso são detalhes, talvez frutos de uma “dose de sorte” (?) que contempla a quem merece. Que ao invés do “muro das lamentações”, o vascaíno prefira a “trincheira da batalha”. E que ao invés de encarar a tudo de forma política tal como é feito nos últimos anos, possamos ter a consciência de que ela, em demasia, autodestrói e nos afasta da vontade em querer ser Vasco em sua completude, enxergando sobre ele um modelo vencedor: tal como o do Corinthians apresenta e ensina ao futebol brasileiro no geral e que o leva a ser consagrado, merecidamente, como campeão do mundo.

Paradigmas ainda não digeridos

O vídeo educacional “A questão dos paradigmas” ensina-nos que quando há uma ruptura de modelo, todos voltam ao seu estágio inicial, não importando nome nem tempo em que uma empresa ou instituição estejam a servir o mercado consumidor. Foi assim, por exemplo, com os relógios suíços Rollex, que dominaram boa parte dessa fatia de consumo durante o século passado e não acompanhou de todo a ruptura de modelo, perdendo muito do espaço que era seu para os concorrentes que compreenderam e souberam digerir a essa mudança. 

É inegável e torna-se ignorância por parte de muitos o não-aceite de que o Vasco estagnou no tempo com relação à sua postura organizacional. Enquanto durante os anos 1990, muitos clubes sustentaram uma política de evolução, preparando-se para o futuro, prospectando seu desenvolvimento sob forma de estrutura, revertendo seus recebíveis também para construção de centros de treinamentos, formação de novos talentos além, é claro, de investir pesado sobre o marketing e a exploração cada vez maior de sua marca revertendo-a em mercado, o Vasco sempre adotou uma política comodista e imediatista por resultados, com investimentos desproporcionais onde não precisava tanto quando possuía mais dinheiro no bolso e sem a construção de um Centro de Treinamentos próprio, para seus profissionais e formação de novos talentos.

Com o advento da Lei Pelé, também chamada por muitos de “Lei do empresário”, muitos clubes de nome – dentre eles, o Vasco – não se adaptaram a essa nova ruptura de modelo. Aos clubes que já tinham esse trabalho de sustentabilidade organizacional e com estrutura própria, suas adaptações ao novo paradigma do mercado da bola foi menos dolorosa. Aos demais clubes (Vasco, dentre eles) desestruturados e mal geridos, resta-lhes hoje pagar para usufruir de estruturas arrendadas e ter que buscar no apoio de empresários um modelo que sustente ainda seus times, não somente profissional como de formação básica, além de negociações muitas vezes lesivas mas que torna-se a alternativa mais fácil e imediata de se conseguir realizar o básico, que é montar um time de futebol e partir para a disputa seja como for. 

Notoriamente, uma declarada inversão de “cabresto”. O clube (Vasco) comprometido com dívidas não somente perde o direito de lucrar em quase cem por cento com jogadores formados em sua própria casa como também não criou estrutura e, com ela,  plano organizacional e respeitabilidade necessária para fazer com que seu ambiente externo o enxergue como grande dentro do mercado. Em outras palavras e por mais que doa: é como o caso uma empresa de nome com pensamento pequeno e tendo que pedir auxílio a terceiros para manter-se com as portas abertas. De nada, no entanto, adiantará continuar a essa “eterna guerra” interna: TODOS são culpados de alguma forma pela situação caótica. Por que, então, não guardar nossas forças e construir o clube que desejamos para nossos herdeiros, cada um com seu limite? 

E o Vasco nesse cenário?

Tal como na teoria empírica, no Vasco só se aprende algo na base das tentativas e erros, até por demais ao meu ver. Só se toma a devida consciência do que é necessário e de seu modus operandi quando um fato novo é gerado e “jogada na cara”, de forma direta e sem possibilidade de desvio. E isso aconteceu durante todo esse ano de 2012, mesmo que com resultados até aceitáveis dentro de campo (longe de serem dignos de comemoração) mas que escondem uma trajetória de más decisões, em que todos os menores erros levaram às consequências mais capitais: até mesmo jogar-se fora a possibilidade de um título nacional. 

Por mais que “sangre”, necessita-se, portanto, revisar-se tudo o que hoje é considerado primordial para começo de conversa:

• Mudar o velho badalado discurso derrotista e começar a sustentar, desde já, um discurso de progresso sustentável e ininterrupto;

• Delegar a pessoas competentes que, ao contrário do torcedor que pensa com o coração, pensem no clube com o cérebro, de forma a não tirar o foco que é o de criar um mínimo de estrutura gerencial para os próximos anos e com ela vir a base para resultados mais expressivos;

• Profissionalizar A TUDO dentro do clube para crescer e sobreviver ao novo paradigma do “mercado da bola”;

• Estipular-se metas com orçamento e prazos estabelecidos dentro da realidade, mas dar-lhes o mínimo de suporte como voz autônoma de comando e salários em dia;

• Reformular TODO departamento jurídico, há tempos o grande “calcanhar de maracujá” (procure no Google) dessa administração;

• Garantir o pagamento de tributos, renegociando-os, parcelando-os e cumprindo com os acordos, de forma a devolver o crédito a quem perdeu por irresponsabilidade ao longo do tempo;

• Revitalizar suas divisões de base em sua plenitude, tão combalidas desde 2008 e retornar com qualidade ao modelo 8-3;

• Não entregar ao clube na mão de um empresário e fazer dele o “senhor do engenho” e o clube seu “feudo” e optar por fazer a roda girar com mais de um empresário;

• Revitalizar o plano de sócios (finalmente, sairá?) com ampla divulgação e, ao menos um ídolo identificado com a torcida para alavancar essa captação;

• Entre outras atitudes, obter com o tempo retorno intangível que faça, finalmente, com que o clube seja olhado com mais respeito e menos sentimento de pêsames, como hoje é tratado.

Em resumo: há de se começar do zero mais uma vez, de forma que se não fizer o correto agora, não vai ser mais por falta de consciência, e sim, porque não querem ou não se mostrarão capazes de fazer, mesmo depois de se conhecer o caminho pelo pior jeito possível. Deverá se ter um trabalho de excelência nas duas pontas: tanto nas receitas quanto nas despesas. Afinal, administrar-se corretamente despesas também gera receitas, e quanto mais o Vasco demostrar que quer fazer diferente do que fora feito de errado até então, mais portas se abrirão com esse possível resgate de crédito.

Resta saber agora: o Vasco - através da figura de seu Presidente – deseja essa ruptura ou vai continuar a se apequenar com o tempo? E ao torcedor e sócio: pretende remar junto ou se lamentar pelo que não lhe é de seu merecimento atual? A resposta está com o Vasco, que nem é de A nem de B. Simplesmente, é o Vasco.

Diferença de pensamentos

“Situação financeira do Flamengo é uma lástima, mas não nos assusta. Vamos enfrenta-la”. (Eduardo Bandeira de Mello, Presidente eleito do CR “do” Flamengo).

"A situação está complicada. Se o clube não tiver o mínimo para arcar com as despesas, fecha as portas.” (Nelson de Almeida, vice-presidente de finanças do CR Vasco da Gama).

E depois, o pessimismo parte do pensamento da torcida para o clube...

Twitts semanais

“@jctm1 profissionalismo total até agora era diferencial. Os times que impuseram a prática se destacaram esportivamente. A partir de agora será regra”. (Júlio César Teixeira)

“@hfloret @nogueiramat Não foi a torcida que levou o Corinthians, foi a gestão competente que trouxe a torcida pra junto do clube.” (Helder Floret, em resposta a outro companheiro)

Além de pontuais, se completam entre si. Ao Vasco, perfeitamente aplicáveis.

Representatividade: quando a teremos de volta?

“Pensei primeiro que a maior rivalidade desse país fosse Palmeiras e Corínthians; depois, passei a achar que era Atlético-MG e Cruzeiro; depois com o tempo, que era Flamengo e Fluminense, até que enfim, cheguei à conclusão de que é realmente Grêmio e Internacional”. (Elias Jr., radialista da Bradesco FM – frase dita em seu programa matinal do dia 14-12-2012, em mais um claro indício da perda de identidade e de espaço do Vasco na mídia nesses últimos anos).

jogoextra
A imagem ao lado é a capa do Jornal Extra, desse último domingo, sobre a não-ida dos cariocas ao Mundial de Clubes faz tempo. Com direito à gafe de ignorarem em seu texto na íntegra o Mundial de 2000 – PRIMEIRO reconhecido pela FIFA, e que o Flamengo não foi vice pois sequer disputou, como aliás, não possui chancelado o seu de 1981, tal como o Vasco não possui a chancela não repercutida sobre seus títulos de 1953 e 1957, todos esses sob moldes semelhantes.

Faz MUITO tempo que me debruço sobre isso: esse descaso que o Vasco adota com relação à sua representação do clube perante a mídia e federações deve ser considerada de forma mais séria. Temos por dia nossa marca desvalorizada por tantas notícias ruins, oriundas do descrédito geral e outras da própria mídia que não reconhece em nossa marca como fonte de receita retornável para sua exploração. Verdade que muito por culpa de nós mesmos, de dirigentes do passado (com discursos de bravatas) e do presente também (com simples desprezo aos fatos, mesmo sob argumentos que nos mostram o contrário) em substituição ao trabalho por mais simples que seja.

Nesse momento a melhor atitude é “cortar-se na própria” carne e repensar sobre tudo o que não fora feito e outras decisões muito erradas que nos levaram ao estágio atual. Em ambiente externo, subserviência e submissão a tudo e a todos. Em ambiente interno, questões políticas, excesso de vaidades e desserviços prestados por omissão que fazem com que o Vasco não cresça tal como poderia.

Bendito medo!

Foi com o título A exemplo de 1989 que o companheiro Marcelo Panoeiro relembrou a brilhante conquista de 1989, que teve como marca um Vasco gozando ainda de representação forte e que derrotou a todo um sistema que já se encontrava encaminhado para uma final entre Palmeiras vs São Paulo. Com coragem, valentia e peitando a tudo e a todos para que os horários de todos os jogos do domingo que antecedeu a conquista, dia 10-12-1989, fosse o mesmo, garantindo o máximo de idoneidade entre todos os jogos. Nesse último domingo, passados vinte e três anos exatos dessa conquista, deixo-lhes abaixo uma reportagem como recordação desse segundo título nacional: palavras publicadas dois dias antes da final no Morumbi e que o treinador tricolor paulista da época teve de engolir com todas as letras. (Fonte: Jornal O Dia – edição de 14-12-1989).

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Agradecimentos

Gostaria de agradecer ao companheiro Márcio Santos pelo encontro promovido em nome de seu grupo “Só Dá Vasco” com pessoas de grande qualidade que integram ao grupo, ouvintes e outros companheiros vascaínos. Fica aqui meu registro à todos os amigos que estavam presentes e que compuseram nossa mesa: André Pedro, Carlos Prata, José Carlos Prata, Júlio César Teixeira, Luís Carlos Rocha e Marcelo Paiva, além de outros que estavam presentes, inclusive ao próprio Márcio, idealizador do evento de confraternização de final de ano! Muito Obrigado por tudo!

Agradeço, também, ao convite feito a mim pelo companheiro Fábio Muniz pelo evento aberto promovido pelo grupo de oposição no qual ele pertence! Não pude comparecer, mas fica aqui meus sinceros agradecimentos pela lembrança, bem como meus manifestos de profundo respeito recíproco por todos aqueles que sempre me respeitaram! Cada um com seus pensamento sobre o que seja melhor para o Vasco, muito maior do que nós todos! 

Acompanhem-me, também, pelo www.webvasco.com e pelo www.semprevasco.com  além da Rádio Mitos da Colina em www.radiomitosdacolina.com.br em parceria com o programa "Só dá Vasco", do companheiro vascaíno Márcio Santos!

Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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