Cristiano Mariotti

Otimismo sem devaneios

 

vasco
Crédito da foto: vasco

Qualquer resultado diferente de uma vitória no sábado teria sido motivo para as profecias do Apocalipse em um ano cuja temporada válida já se inicia com temores da parte majoritária de nossa torcida pelo pior que pode estar por vir. Por conta disso, qualquer resultado de vitória normal, além de não ser mais do que obrigação para um GIGANTE de camisa como o Vasco é, serviria como contraponto para os incrédulos e um fio de esperança para os que creem ainda na diretoria atual e também para os incrédulos, mas que acima de tudo são (ou deveriam ser) vascaínos em primeiro lugar.

Essas condições pontuadas fazem parte de um certame de baixíssimo nível técnico, jogos deficitários, arrastados com equipes de menor investimento que se apequenam a cada ano e ainda sobrevivem às custas de uma federação que seus Presidentes elegem o Presidente da entidade em troca do prolongamento dessa fórmula de disputa que lhes garantam visibilidade nacional por pelo menos quatro meses e cujos Presidentes dos clubes grandes reclamam a cada ano, mas acabam que aceitam ao mesmo modelo de forma passiva e depois se queixam das contas que não fecham ao final de cada época. Enfim, Campeonato Carioca virou um modelo em que se o grande clube não vence ao pequeno é motivo de constrangimento; se perde trata-se do primor da vergonha mesmo; mas se vence, não cumpre mais do que uma obrigação.

E foi nesse peso de obrigação de vencer que vimos um time em formação como o Vasco superar a expectativa de todos e exibir um futebol de ótimo nível nessa estreia carregada por seu peso natural e por uma mescla de ansiedade aliada à desesperança e ceticismo por grande parte de sua torcida. De forma surpreendente, confesso-lhes. Pois ainda que acreditasse na vitória, sinceramente não acreditava que fosse com a facilidade com que se desenhou e com o nível de ótimo desempenho apresentado em mais um dos horríveis gramados que ainda seremos obrigados a presenciar nesse campeonato.

E ainda, nem imaginaria que logo os dois piores jogadores do Vasco durante 2012 fossem os dois destaques do jogo, autores dos dois primeiros gols e peças importantes no setor ofensivo da equipe. Em especial, Carlos Alberto, jogador talentoso que desperdiça sua categoria pela falta de juízo à altura do que possui em habilidade; e depois, Éder Luís, velocista que, a exemplo de Carlos Alberto, quando quer jogar para o time mostra-se importante taticamente e um desafogo para o time, principalmente como esse do Vasco carente em laterais. Ao lado de Bernardo, reestreante daquela noite, e do estreante Pedro Ken deram o tom ofensivo necessário para que a equipe envolvesse o Boavista e derrotasse com facilidade a uma das equipes de menor investimento que mais trabalho exige das equipes grandes.

Por esses motivos todos enumerados, a torcida do Vasco (nós!) não deve deixar se contagiar pela euforia exacerbada nesse primeiro momento. É necessário termos paciência, mais além do que temos tido durante esse tempo todo de uns tempos para cá. Em um time dependente de jogadores inconstantes como Carlos Alberto, Éder Luís e Bernardo e cujos laterais são simplesmente improvisados, há de se ter cautela e consciência sem, no entanto, perdermos nossa essência maior que é sermos torcedores, seja na vitória como a de sábado, ou nas derrotas que virão com certeza. Nem é motivo para achar que é esse o time ideal (até mesmo, porque não é) e nem para se começar uma temporada como derrotados, tal como alguns compravam ao discurso de “vascaínos” da imprensa esportiva (também) além de próprios sócios e outros torcedores que já começaram a pregar o pior de forma incondicional.

De forma bem lúcida, o Vasco está na disputa pelo campeonato, até mesmo porque será O ÚNICO grande a disputar um só campeonato até maio. Ocasião essa em que Fluminense estará disputando a Libertadores; e Botafogo com Flamengo as fases iniciais da Copa do Brasil em concomitância com o Campeonato Carioca. Para tanto, não bastará se acomodar e pensar que a mesma exibição de sábado será constante se não houver um fator que muito contribuiu para esse primeiro triunfo: DISPOSIÇÃO, algo que faltou a quem lá estava, em especial, no segundo turno do Brasileirão de 2012.

Alessandro como goleiro ainda não foi testado. Abuda e Wendel não são laterais de origem, mas mostraram-se úteis nas funções, em especial Wendel, que deverá concorrer a uma vaga no meio de campo. Elsinho e o recém contratado (e desconhecido, para mim) Yotún deverão ser os titulares quando estiverem em condições de jogo. Dedé e Douglas é o que de melhor temos em miolo de zaga nesse momento. Fellipe Souto, Sandro Silva (que ainda não estreou) e Wendel disputarão, em princípio, duas vagas nesse meio de campo, ainda que considere que precisamos de um cabeça de área mais viril, ao estilo Leandro Ávila entre 1992-1996,  Nasa e Amaral “coveiro” do final dos anos 1990. Abuda, quem sabe, pode exercer essa função. Como homens de criação, ficaremos reféns de Carlos Alberto, Bernardo e de Pedro Ken, esse último com chance finalmente de provar que pode se firmar como jogador de um grande clube. No ataque, dependeremos de um pouco mais de inteligência e futebol solidário de Éder Luís e de Tenório como goleador e livre das lesões que o abateram no ano passado. 

Sob a “batuta” da dupla Ricardo Gomes e Gaúcho. Ao primeiro, o dom de agregar a um elenco, muito mais do que qualquer estratégia de jogo, coisa que nunca lhe foi peculiar e não será agora que virá a ser. Ao segundo, o compromisso de conduzir o time à beira do campo. Coisa que, por questão de justiça, devemos salientar que está invicto em sua empreitada desde que assumiu como treinador e que se fosse um técnico com mais peso em seu nome teria sido amplamente elogiado tal a postura tática ofensiva, com deslocamentos envolventes, solidez na defesa no pouco que o time foi exigido pelo Boavista e, acima de tudo, futebol solidário de todos. 

Em tempo: está longe de ser o ideal com relação a nomes. Está longe de despertar devaneios de grande futebol contra todos os times sempre. Mas se mantiver o trabalho sério, com imposição de comando, trabalho árduo para manter a todos os profissionais com seus vencimentos em dia, boas condutas de treinamento e apoio incondicional da torcida, não tem como pensar que não poderemos disputar a esse título. Por sinal, ausente de São Januário há dez anos. 

Vale lembrar

O último turno do Carioca no qual chegamos e vencemos foi a Taça Rio em 2004 (recorde-se assistindo ao vídeo abaixo). Aquele time era formado, basicamente, por Fábio; Claudemir, Wescley, Henrique e Victor Boleta; Ygor, Coutinho, Rodrigo Souto e Beto; Róbson Luiz e Valdir. Técnico: Geninho. Ao meu juízo, um time pior do que o atual que possuímos.



Após o pior início de campeonato em 2011, chegamos a final de TODOS os turnos do Campeonato Carioca, resultando em três vice-campeonatos seguidos e tendo, ainda naquele ano, ganhado a Copa do Brasil, pondo fim aos longínquos mais de oito anos sem títulos no futebol. 

Dentro do atual certame em que, fazendo o “dever de casa” de time grande perante os de menor investimento, os jogos pra valer tornam-se as semifinais e as finais de cada turno, provavelmente envolvendo os quatro grandes do estado enfrentando-se sob a velha máxima de que “em clássico tudo pode acontecer”. 

Ainda com esses argumentos, é loucura pensar que o título, ao menos carioca, seja possível?

Qual é a verdade?

Em ótima entrevista concedida essa semana que passou ao repórter Raphael Zarko do Jornal Extra e ao contrário do que comentava-se até dezembro pelos bastidores de São Januário, o empresário e remido sócio vascaíno (por antecipação) Carlos Leite afirmou não ter qualquer tipo de problema com o Presidente do clube, Roberto Dinamite. Interessante notar, no entanto, que em seu discurso ele defende “negócios com pessoas gabaritadas, comprometidas” em sua maior aproximação com o clube rubro-negro. Estaria faltando isso em sua opinião e nas entrelinhas para o Vasco, motivo esse que o fez se afastar do clube aos poucos? E com a reforma administrativa, não seria interessante aproveitar-se da boa relação com Cristiano Koehler para retomar seus negócios com o Vasco? Ou ele, Carlos Leite, considera que com o atual Presidente, independentemente de quem venha a ser seus novos sustentáculos, sua relação esteja findada?

O futebol profissional tendo empresários como intermediário causa estranheza, contudo ainda que é difícil, torna-se necessário conviver-se com esse tipo de situação natural nos dias atuais: ainda que de minha parte eu desaprove os vínculos sociais entre empresários e clubes de futebol por questão mesmo de preservação à imagem de ambas as partes, Carlos Leite é sócio remido do Vasco, vascaíno, mas possui sua profissão e zela pelos seus negócios em primeiro lugar, mesmo que a pena para nós seja o vendo reforçar ao principal rival doméstico. Pode, com seu auxílio, influenciar os rumos do futebol no gramado, dar o título ao arquirrival, sendo vinculado socialmente ao Vasco.

Enquanto que sua relação com o clube parece como mais um dos ciclos fechados, o Vasco atravessa tormentas e se vê em dificuldades para atrair bons valores. Seria o Vasco considerado um território infrutífero hoje para o empresário em questão, o modelo de gestão do cruzmaltino que não se compatibiliza mais com seus interesses como profissional, seus jogadores que são caros demais para o que o Vasco pretende estabelecer como teto salarial, as três razões ou alguma outra razão que somente aqueles mais próximos conseguem responder?

Tributo a Mané Garrincha

Mané Garrincha e o Vasco

No dia 20 de janeiro de 1983, o mundo se despedia de Mané Garrincha, segundo relatos da época, um dos maiores jogadores de futebol que o mundo do futebol pôde presenciar. Em 20 de julho de 1967,Mané vestira a camisa do Vasco, em amistoso disputado contra uma seleção da cidade de Cordeiro, no qual nosso time formado por reservas e jogadores amadores vencera pelo placar de 6 vs 1 o time local. Garrincha jogou bem, fez um gol e deu passe para mais quatro, segundo o “pé de página merecido” para esse evento (mesmo se tratando de um grande craque vestindo a camisa de um grande clube) reproduzido pelo Jornal do Brasil no dia seguinte ao jogo de exibição.

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Cristiano Mariotti

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cristianomariottiMestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI, é colunista do portal supervasco.com. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adotou São Januário como segundo lar e leva a cruz-de-malta no peito desde que nasceu.

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